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Humana festa (Humana Festa, A Novel)

Entrevistas não publicadas ou publicadas parcialmente, estudos, comentários de leitores, etc.

Most of the materials below are in Portuguese, but there are some in English as well.

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Comentários de alguns leitores do Humana festa, publicados aqui com a permissão deles.

Comentário do ator e poeta português Nuno Meireles (dezembro de 2013 no Facebook): "Cara Regina, acabei de ler o livro todo (Humana festa) e há tanto a dizer! Em primeiro lugar dou-lhe os parabéns sumários por ter uma escrita tão ágil, por ter humor, por ter dado à luz um livro tão bonito (todos os meus conhecidos que pegam no livro elogiam-no: bom grafismo, objecto bonito). Em segundo e mais importante lugar: parabéns por ter escrito pessoas com tantas contradições, nem boas nem más, mas pessoas, sejam veganas ou não. Isto é a pedra de toque do livro: é um livro vegano, é um livro que provém explicitamente de uma militância, é um livro que enuncia, denuncia, faz apologia mas... fala das pessoas como contraditórias. Ou seja, assume que estamos numa encruzilhada, sempre. Com os nossos desejos, estilos de vida, escolhas, passados, futuros. Isso é maravilhoso.
Agradeço-lhe - com veneração, sinceramente - ter feito ficção com tanta realidade que um neófito como eu só vai percebendo pouco a pouco: a discussão à mesa, a presença de Carol Adams, a menção de Francione e Regan, os hábitos, as convivências, os projectos, as utopias (oh, as uopias!) e também as afinidades e as procuras de abrigo, família, companhia ou entendimento.
O seu livro mostra bem, através da ficção, que:
- é possível fazer arte literária a partir de um ponto de vista tão forte e questionador quanto o vegano, em vez de isso ser contornado, anulado ou omitido.
- é incontornável de facto combater-se toda a discriminação e não apenas uma das variantes (os episódios das reuniões na venda do Norato são deliciosos, mas também amargos).
Além de ser um livro que abre o apetite com os pratos veganos, que aguça a curiosidade para com processos e entidades (a Holy Hill existirá?, pergunta o leitor), que enamora para o estilo de vida, para a liberdade de se ser vegano, é um livro que se devora, com um ritmo e até uma poesia (como no caso do corvo) extraordinários!
Antes de dizer que fiquei seu fã, eu gostava de lhe pedir novamente licença fazer uma leitura parcial do capítulo Fá, (aquele episódio de discussão/guerra à mesa...) para uma nova sessão de escritores veganos que farei aqui no Porto.
E agora sim, posso dizê-lo: fiquei seu fã!
Um abraço
Nuno Meireles
Ups, o capítulo a que me referia não é Fá, mas Lá... E adorei que os capítulos fossem os gatos!"

Comentário da poetisa portuguesa Andreia C. Faria (dezembro de 2013 no Facebook): "A Regina deixou-me uma sensação de grande leveza. É preciso que alguém escreva sobre estes temas de uma forma menos sofrida (e não quero com isto dizer menos comprometida, menos sentida), com mais humor, com mais intimidade, digamos. Algumas das personagens e situações que ela descreve têm aquele tipo de exuberância que às vezes se encontra nas telenovelas brasileiras, e olha que não seria desmérito para a Regina que alguém fizesse uma telenovela ou uma série a partir deste livro. Há aqui um sentido didáctico, de missão, como bem dizes, mas nem o estilo da Regina nem as personagens são meros ventríloquos. Sentimo-los bem de carne e osso, bem palpáveis. Eu reconheci-me em tantas das certezas e contradições. E sobretudo agrada-me esta ideia de festa, de ajuntamento, de celebração. Que o veganismo seja uma forma de celebrar o corpo, a vida, que a comida seja uma arma da luta de classes e um instrumento de discussão e de amor entre amantes."

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Entrevista dada por Regina Rheda à Revista dos Vegetarianos, publicada parcialmente dentro da matéria “Vegetarianismo entre linhas” em agosto de 2013.

Pergunta: Por que decidiu se tornar escritora?
Regina Rheda: Eu fazia cinema e TV antes, o que envolvia grandes equipes, muitos equipamentos, grandes orçamentos, etc. Decidi me tornar escritora de romances e contos para poder criar ficção com mais autonomia e economia.
Pergunta: Para você, o que é um livro bom?
Regina Rheda: Para mim, um livro bom é aquele que é escrito com imaginação, poesia, habilidade para surpreender, comando do idioma e, de preferência, ideias que não sejam reacionárias.

Pergunta: O tema central de Humana festa é os direitos animais. Por tratar de um tema tão polêmico, você teve dificuldades para publicar seu livro? Não precisa citar nomes, só queria saber se o livro ou outro trabalho seu chegou a ser recusado por alguma editora justamente porque falava sobre esse tema. Existe esse tipo de preconceito no meio editorial?

Regina Rheda: O meu romance Humana festa foi aceito logo pela primeira editora que eu procurei: a Record. Essa editora estava interessada em publicar livros de ficção com a temática animal. O fato de meu livro ser um romance com cara de romance mesmo, e não de puro panfleto ou ensaio, obviamente pesou a favor de sua publicação. Não acho que exista preconceito contra o tema direitos animais entre os editores; acho que existe mais falta de conhecimento sobre o assunto do que preconceito mesmo.
Pergunta: A defesa animal pode ser vista como assunto “chato” por um grande número de pessoas. Quais recursos literários você costuma utilizar para falar sobre isso sem deixar o leitor perder o interesse pela história?
Regina Rheda: Uso humor. Desenvolvo uma narrativa que seja envolvente e tenha uma boa dose de surpresas. Uso lirismo. Incluo informações que os leitores em geral não têm. Alterno momentos alegres com momentos tristes. Procuro criar personagens humanos intrigantes, com algumas características inusitadas (para satisfazer a curiosidade dos leitores em relação ao “diferente”) e outras características que sejam comuns a todos nós (para que os leitores se identifiquem). Tento criar personagens animais fascinantes e cativantes. Provoco os leitores, incentivando-os a tomarem partido, ou a pelo menos se engajarem, nos conflitos éticos apresentados.
Pergunta: Na sua opinião, de que modo a literatura pode ajudar a causa animal?
Regina Rheda: No mínimo, de dois modos. Primeiro: a literatura de ficção pode funcionar como motivação ou ilustração. Por exemplo, uma história pungente sobre um animal pode despertar a empatia dos leitores em relação aos animais em geral, mexendo com a emoção desses leitores e tornando-os mais receptivos a uma futura mensagem moral para se tornarem veganos. Segundo: a literatura pode ir mais fundo e direto ao que importa, colocando em foco o imperativo moral da abolição da exploração animal. Nesse caso, a escritora ou escritor deve mostrar com clareza, usando muita criatividade artística, que os humanos precisam parar de usar os animais sencientes como recursos ou propriedade. Creio que no Humana festa eu combinei os dois modos, mexendo com a emoção dos leitores e apresentando claramente uma visão de mundo vegana. O livro tem sido usado, tanto em português quanto em inglês, em cursos de literatura latino-americana de universidades americanas. As professoras me informaram de que os alunos geralmente gostam muito dele e que ele gera ótimas discussões em classe.
Pergunta: Isaac Singer, J.M. Coetzee, você, Jonathan Foer, Tolstoi, George Bernard Shaw, Mary Shelley… Em forma de ensaio, romance, conto... Muitos escritores já falaram sobre a moral vegetariana de um modo ou de outro. Levando em conta a causa, acha que falar da defesa animal usando a literatura é mais fácil ou mais difícil se compararmos com outras formas de arte, como o cinema, por exemplo? Por quê?
Regina Rheda: Meu romance Humana festa é radical, abordando o veganismo e a necessidade de abolirmos totalmente a exploração de todos os animais sencientes. Como você já sabe, nenhum desses autores que mencionou tem essa abordagem. Por essa razão, ou principalmente por essa razão, meu romance é considerado pioneiro. Quanto à literatura ser mais fácil ou mais difícil do que outras formas de arte... para mim, é mais fácil fazer literatura do que audiovisuais como cinema, etc. Acho o trabalho solitário de imaginar e escrever mais prazeroso e simples que o de negociar arte com equipes, atores, produtores e equipamentos complicados. Mas o mais importante: eu não filmaria o Humana festa,  porque os audiovisuais continuam usando animais treinados como “atores”. Em livro, os animais não são “reais”; eles são feitos apenas de letras.
Pergunta: Dos nomes que citei, só você é brasileira, mas já vive há um tempão nos Estados Unidos (e pelo que sei foi aí que aprofundou seu conhecimento sobre veganismo, né?). Por que será que o Brasil não produz tantos escritores veganos quanto os Estados Unidos ou Inglaterra, por exemplo? 
Regina Rheda: Mas esses escritores ingleses e americanos a que você se refere não são veganos não, e sim vegetarianos ou coisa do tipo. Pelo menos essa é a informação que eu tenho no momento. Então esses escritores continuam explorando os animais por seu leite, ovos, e seja o que for que os vegetarianos normalmente comem. Bem, de qualquer forma, o Brasil ainda tem um problema muito grave: falta de apoio à educação. Sem educação, não há ideias, nem escritores, nem leitores. E certas ideias progressistas (por exemplo: o veganismo), que vieram de países que dão mais apoio à educação, demoraram para chegar no Brasil. Mas, com o advento da internet, o acesso às ideias aumentou bastante. E a presidenta Dilma Rousseff prometeu investir em educação. Assim, acho que no futuro teremos mais escritores virando veganos e escrevendo sobre veganismo no Brasil.
Pergunta: O que você está lendo agora?
Regina Rheda: Agora estou lendo um livro de contos muito elogiado aqui nos Estados Unidos, do autor americano contemporâneo George Saunders: Tenth of December. Não é sobre a causa animal não...
Pergunta: Qual será o próximo livro? E quando será publicado?
Regina Rheda: Não sei. Por enquanto estou lendo muito e fazendo muitas anotações para um novo projeto. Vamos ver no que vai dar.
Pergunta: À parte Humana festa, qual livro sobre defesa animal deveria ser lido por todo mundo que se interessa pela vida dos bichos? Por quê?
Regina Rheda: Todo mundo precisa ler o livro Introdução aos direitos animais, do professor americano de Direito e Filosofia Gary L. Francione. Está para sair no Brasil pela Editora da Unicamp. A tradução é minha. É um livro imprescindível que explica, de maneira simples e direta, as razões filosóficas, éticas, ambientais e de saúde humana para pararmos de usar os animais e nos tornarmos veganos.

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Entrevista dada por Regina Rheda a Alexandra Isfahani-Hammond, professora de literatura da Universidade da Califórnia/San Diego, em outubro 2009.


REGINA RHEDA:
AS RELAÇÕES HUMANO-ANIMAIS NO ROMANCE HUMANA FESTA

Professora Alexandra Isfahani-Hammond


Nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, Regina Rheda se formou em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da USP em 1984. No início dos anos 1980s, ela fez parte da banda de rock Esquadrilha da Fumaça e, de 1980 até 1990, escreveu e dirigiu vídeos e filmes de curta-metragem que foram premiados em alguns dos festivais mais prestigiosos no Brasil. Mas Regina é conhecida principalmente como uma das grandes escritoras brasileiras contemporâneas. Em obras que incluem Arca sem Noé - histórias do edifício Copan (1994, prêmio Jabuti em 1995), Pau-de-arara classe turística (1996), Livro que vende (2003) e First World Third Class and Other Tales of the Global Mix (2005), ela transmite uma visão ao mesmo tempo empática e irônica dos choques de cultura, das armadilhas do amor romântico, da globalização e seus descontentamentos, e dos comportamentos e atitudes eticamente esquizofrênicos. Em 2000, Regina tornou-se vegana e defensora da abolição da exploração dos animais não-humanos. Em seu romance mais recente, Humana festa (2008), ela encara, de maneira frequentemente hilária, a cegueira moral que está por trás das racionalizações pela objetificação dos animais não-humanos, e a relação entre o especismo e outros modos de exclusão baseados em raça, gênero, classe e nacionalidade. Assim como a trajetória da própria escritora, que começou na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo (SP) e chegou, por enquanto, à Flórida, a ação de Humana festa se divide entre o interior paulista e o pantanal floridiano. Com humor e a aguda sensibilidade multicultural de quem já passou por várias fronteiras, seu romance aborda os mal-entendidos de um casal brasileiro/estadunidense, enquanto articula os conceitos do veganismo e da abolição da escravidão dos animais. Seja dentro ou fora do Brasil, o Humana festa é um romance sem precedente devido ao seu engajamento explícito com a teoria dos diretos animais e, mais especificamente, com os argumentos do abolicionista e professor de Direito Gary Francione, cuja convicção de que os animais devem ser reconhecidos como pessoas constitui o argumento mais coerente, já desenvolvido até agora, pelo fim de seu uso como propriedade. Nas páginas seguintes, Regina responde perguntas sobre sua trajetória criativa, suas influências éticas e artísticas, e suas experiências tanto como cidadã global quanto como vegana num mundo antropocêntrico.


AIH: Quais os escritores que tiveram mais influência sobre seu trabalho, ou estilisticamente ou devido à sua sensibilidade quanto às relações humano-animais e outros modos de esquizofrenia moral?

RR: Primeiro, preciso dizer que foi só depois de publicar três livros que comecei a me preocupar, de verdade, com a questão animal. Meu modo de escrever sobre os animais antes de 2000 (quando me tornei vegana, ou vegan) era muito diferente do modo como passei a escrever sobre eles depois, em contos como “O santuário”, “Dona Carminda e o príncipe” e “A frente”, um pouco no romance Livro que Vende, e, principalmente, no romance Humana festa. No Humana festa, eu critico a visão de mundo especista que transforma os animais não-humanos em propriedade ou mercadorias dos animais humanos.
        Meus autores favoritos são Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos e outros modernistas brasileiros. Macunaíma me marcou muito, tanto o livro quanto o filme. Também gosto bastante de Margaret Atwood e Gore Vidal. Acho que a influência desses autores pode ser encontrada em meu estilo, particularmente no registro irônico e humorístico.
        Aderi à ideologia abolicionista, que é a favor da abolição da exploração animal, lendo, principalmente, o filósofo e advogado estadunidense Gary L. Francione. Antes disso, eu já havia me informado sobre a ligação entre o patriarcado, o consumo da carne e o sexismo, lendo a feminista Carol Adams. A afroamericana Alice Walker escreveu ficção com uma abordagem ecofeminista. Uso uma declaração dela como uma das epígrafes do Humana festa: “Os animais do mundo existem por razões próprias. Eles não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens”.

AIH: Que efeitos seu engajamento na defesa animal teve em sua literatura?

RR: A defesa da causa tem influenciado muito a minha escrita, quanto à temática e à estética. Tenho tido de trabalhar bastante na carpintaria da minha literatura para evitar que críticos conservadores ou puristas a descartem, logo de saída, como uma mera “doutrinação” ideológica. Minha intenção principal não é “doutrinar”, e sim me expressar artisticamente; de quebra, quero ajudar a mudar o mundo. Mas sei que a sociedade não vai mudar só por causa de um romance. E tenho consciência de que expor literariamente a injustiça da exploração animal, num meio que ainda considera usar animais tão normal quanto respirar, é arriscar-se a suscitar verdadeiros paroxismos de ansiedade carnívora na chamada “reação”, por mais trabalhada que seja a forma dessa literatura.

       AIH: Sua obra aborda opressões interligadas, choques de cultura e espaços intersticiais. Como é que suas viagens, incluindo a experiência de brasileira na Flórida, influenciaram sua perspectiva sobre o “global mix”?

        RR: Eu tenho fascínio pela diversidade cultural, social, ambiental, etc., como material para a criação literária. Então sempre estive atenta a todas as minhas experiências, no Brasil e fora do Brasil, que pudessem ser reelaboradas em ficção de maneira instigante, inusitada ou curiosa para meus leitores ideais. Foi por isso que a cosmópole São Paulo, onde vivi durante mais de 30 anos, me inspirou a estrear na literatura de ficção com o livro de contos Arca sem Noé – histórias do edifício Copan, que foi publicado também em inglês, num volume da University of Texas Press, em 2005. Depois escrevi o romance Pau-de-arara Classe Turística, com um tema transnacional, em que uma personagem pícara brasileira tenta virar cidadã europeia, aventurando-se pela Inglaterra e a Itália. O Pau-de-arara Classe Turística também foi traduzido e publicado em inglês no mesmo volume que o Arca sem Noé. O volume se chama First World Third Class and Other Tales of The Global Mix e inclui três contos “transnacionais” meus.
               Trabalhar com o surpreendente ou o inusitado me desafia a procurar formas menos comuns de expressar os efeitos da surpresa, do diferente. Gosto de elaborar sobre conflitos de todo tipo, porque esse trabalho permite que eu me coloque de um lado do conflito de cada vez, num jogo que eu considero prazeroso, muito semelhante ao de uma atriz que vive trocando de papéis. No romance Humana festa, eu dou voz a todas as partes. Mas isso não significa que o livro tenha uma posição ética relativista. Ao contrário, tem uma visão de mundo inequívoca.

AIH: Temos presenciado uma onda de atenção intelectual à questão moral do uso dos animais. Mais notavelmente, em “L’animal que donc je suis” (2002), Jacques Derrida compara a superprodução e o extermínio dos animais nos abatedouros e laboratórios de experimentação com os piores casos de genocídio. Por outro lado, a maioria dos acadêmicos e intelectuais continua a pensar nos animais só como idéias ou símbolos a serem desconstruídos. Quais são as chances desses intelectuais lerem a obra de Derrida, ou então o Humana festa, e repensarem mais radicalmente suas relações com os animais não-humanos de carne e osso?

RR: De fato, o número de março de 2009 da Publications of the Modern Language Association of America, que é a mais importante revista acadêmica americana sobre estudos literários, foi dedicado principalmente à questão da animalidade e aos Animal Studies, trazendo uma série de ensaios sobre o assunto. Mas, se essa onda de preocupação com os animais é nova no Ocidente, não é novidade nenhuma entre os seguidores do jainismo, uma religião nascida na Índia há mais de 3 mil anos. Os jainas, ou jainistas, norteiam-se pelo princípio da Ahimsa, ou não-violência, e são contra causar dano aos animais. Normalmente são vegetarianos, mas muitos estão se tornando veganos por perceberem que todo uso de animal constitui violência.
        Esse interesse dos intelectuais ocidentais pela animalidade na literatura e em outras formas de arte e conhecimento humano só fará sentido se resultar numa prática do veganismo por parte desses intelectuais e seus discípulos. Este é um daqueles casos em que o objeto estudado precisa ser o principal beneficiário do estudo!
      
       AIH: Para muitas pessoas, a questão dos direitos dos animais continua a ser vista como uma proposta não séria. Como o Humana festa tem sido recebido no Brasil,  até agora?

       RR: Estando nos Estados Unidos há 10 anos, não tive controle sobre a divulgação e a distribuição do livro. Então, não sei dizer até que ponto seu tema principal, que é veganismo/direitos animais, teve, ou deixou de ter, potencial para atrair o interesse dos críticos e leitores.
               Com certeza Márcio Seligmann-Silva, respeitado ensaísta, professor de literatura comparada e teoria literária, além de favorável à causa dos direitos animais, deu todo seu apoio ao livro, o que ficou demonstrado na orelha que ele escreveu e em comentários que ele fez privadamente. O próprio fato de o livro ter sido publicado pela editora Record, uma das maiores e mais poderosas editoras do Brasil, indica apreciação pelo seu tema e qualidade.
               A julgar pelos e-mails que tenho recebido e outros comentários que tenho lido on line, quase todo mundo que leu o Humana festa teve uma reação extremamente positiva, referindo-se sobretudo à sua força narrativa, ao prazer proporcionado pela sua leitura e à sua posição a favor dos animais. Porque a verdade é que quase todas as pessoas de todas as culturas deste mundo se preocupam com os animais e acham errado causar-lhes sofrimento e morte sem necessidade. Cabe aos veganos informá-las de que o consumo de animais sempre envolve sofrimento e morte, e que o veganismo não é apenas possível, como também necessário por razões ligadas à ética, à saúde humana e ao ambiente.

       AIH: Os personagens de Humana festa são tão vívidos que, para mim, foi impossível deixar  de imaginar a sua adaptação cinematográfica. Especialmente no caso da Dona Orquídea, com sua saia de algodão, camiseta de propaganda, sandália havaianas e lenço banhado em alfazema. Como você vê o impacto de sua carreira de cineasta  sobre sua voz literária?

        RR: Tenho uma vocação para o audiovisual e a performance. Eu me formei em Cinema, na Universidade de São Paulo e, durante 10 anos, trabalhei e ganhei prêmios na área de roteiro e direção de curtas, longas e vídeos. Minhas neochanchadas musicais estão entre os filmes que iniciaram o boom do curta brasileiro nos anos 1980s, e esse boom do curta precedeu a chamada “retomada” da produção de longas metragens de boa qualidade no Brasil, após uma das crises vividas pelo cinema nacional. De qualquer maneira, acabei migrando para a literatura e ganhei um prêmio Jabuti com o meu livro de estreia, Arca sem Noé – histórias do edifício Copan.
              O Humana festa só poderia ser filmado com a ajuda de muitos efeitos de animação, já que sou contra forçar animais a serem “atores” em qualquer tipo de entretenimento que seja. No próprio livro, debaixo dos dados sobre o copyright, eu fiz questão de colocar este aviso: “A autora só permite a transposição do romance Humana festa para formas de arte e comunicação que não usem animais verdadeiros”.

       AIH: Em Humana festa, você retrata a realidade da fazenda industrial e a ideologia do veganismo dentro de uma narrativa com muitos toques de humor. Como você entende o papel do humor no esforço para efetuar mudança social e, mais especificamente, para aumentar a conscientização sobre os direitos animais?

       RR: O humor e a ironia são muito marcantes no meu trabalho. Entendo que, no meu romance, o humor combina duas funções. Uma é a de cativar, dar prazer, conquistar. Outra, a de ir além do puro prazer do riso, engajando o leitor e provocando-o, procurando levá-lo a questionar ou criticar as coisas erradas.
               Mas não foi muito fácil trabalhar, com humor e ironia, um tema delicado e, ao mesmo tempo, terrível, como é o tema da escravidão animal. Procurei usar humor sempre que possível, mas com muito cuidado para que, em determinados casos (por exemplo, quando trato das personagens Megan e Sybil), a graça fosse percebida pelos leitores como restrita às personagens e às situações que elas vivem, e não como um sinal de desprezo da autora pelos esforços dos ativistas que estão tentando expandir o veganismo na vida real. Também tentei trabalhar o humor, além de outros fatores, de forma a deixar o mais claro possível, para o leitor, que certas atitudes de certos personagens têm uma atitude correspondente criticável na vida real. Outras vezes, fiz uso de ironia sutil e ambígua, pelo puro prazer de escrever ironias. Mais importante ainda, tomei muito cuidado para jamais banalizar a pavorosa situação dos animais.

       AIH: Existe muita resistência ao reconhecimento dos paralelos entre as maiores atrocidades globais e o tratamento contemporâneo dos animais nos abatedouros, laboratórios de experimentação, fazendas de peles, etc., pelo mundo inteiro. Qual a sua reação a esta resistência? Como você vê as interseções entre diferentes formas de exploração na sua obra?

       RR: Para mim, é fácil enxergar que a raiz de todas as formas de opressão é a violência. A violência usa seres sencientes -- sejam eles humanos ou não-humanos, de qualquer raça, cor, gênero, espécie, etc. -- como se fossem coisas, como se fossem recursos para os fins do opressor. Todas as vítimas de um campo de concentração, de um matadouro, de um senhor de escravos, de uma fazenda, ou de uma guerra, sejam elas seres humanos ou seres não-humanos, são seres com valor inerente, que estão sendo usados como objeto, ou recurso, ou propriedade alheia.
              No Humana festa eu procuro trabalhar, de diferentes maneiras, a ideia do opressor comum de animais humanos e não-humanos. Uma dessas maneiras envolve o personagem Afonso Bezerra Leitão, um grande proprietário de fazendas de gado e porco às voltas com conflitos de trabalhadores rurais e ações diretas de uma matuta que tenta defender os animais.

       AIH: Por um lado, a atual superprodução e a matança de animais não-humanos é sem precedente. Por outro lado, existem um reconhecimento e uma indignação cada vez maiores quanto à exploração dos animais não-humanos. Como você vê a evolução do movimento pelo fim da exploração animal no Brasil?

       RR: Um movimento autêntico pelo fim da exploração animal é aquele em que os ativistas são veganos e educam as outras pessoas a serem veganas também. Esse movimento divulga o veganismo ético para mudar o paradigma moral da sociedade e acabar com o uso de animais como recursos ou propriedade dos humanos. Mas ainda é um movimento muito pequeno no mundo todo, inclusive no Brasil, embora esteja crescendo. Infelizmente, o tipo de “defesa” animal que predomina em todo lugar é o chamado bem-estar animal, que supostamente torna a exploração mais “humana”, ou humanitária, como se diz no Brasil. Na realidade, o bem-estar animal perpetua a exploração. Só o veganismo é capaz de acabar com a violência, a injustiça e a exploração que vitimam os animais.

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Resumo da palestra/ensaio (2008) de Alexandra Isfahani-Hammond (professora associada de Literatura Comparada na Universidade da Califórnia-San Diego e autora do livro White Negritude: Race, Writing and Brazilian Cultural Identity).

 Os humanimais de Regina Rheda: HUMANA FESTA e o romance pós-escravidão
A professora Alexandra Isfahani-Hammond examina o romance de Regina Rheda Humana festa (2008), uma comédia de costumes pioneira sobre o agronegócio neoliberal pós-escravidão no interior paulista, a qual delineia as premissas da abolição da exploração animal em relação às estruturas pós-coloniais de dominação. A professora Alexandra situa o romance de Rheda no contexto das discussões pós-escravistas brasileiras sobre raça, nação e dialética humana/animal, desde a antropofagia de Oswald até as atividades de defensores dos animais.

Essa discussão sobre Regina Rheda será retrabalhada em um capítulo do atual projeto de livro da professora, Animal Bodies: Race, Species and Brazilian Cultural Theory [Corpos animais: raça, espécie e teoria cultural brasileira]. Do protagonista humano-cum-canino em Quincas Borba (1891) de Machado de Assis, até os animais de fazenda criados para abate em Amarelo Manga (2002) de Cláudio de Assis, os animais não-humanos são instrínsecos ao imaginário brasileiro referente ao conflito e à racialização pós-coloniais. Por meio de leituras de textos abrangendo desde o Manifesto Antropófago (1928) de Oswald de Andrade até Humana festa (2008) de Regina Rheda, Isfahani-Hammond indaga sobre tópicos como a natureza, os animais e os indígenas; o corpo como máquina; a violência das fazendas e a canibalização; sexualidade e animalidade; e a questão da carne. De que modo as figuras animais têm sustentado ou minado os sistemas coloniais e escravagistas de dominação? 
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An abstract of a talk/an essay (2008) by Alexandra Isfahani-Hammond (Associate Professor of Comparative Literature at U.C. San Diego, and author of White Negritude: Race, Writing and Brazilian Cultural Identity).

Regina Rheda’s Humanimals: Humana festa and the Postslavery Novel

Professor Alexandra Isfahani-Hammond’s talk investigates Regina Rheda’s Humana festa (2008), a pioneer comedy of manners about the postslavery, neoliberal agribusiness interior of São Paulo that delineates the premises of the abolition of animal exploitation in relation to postcolonial structures of domination. She situates Rheda’s novel in the context of postslavery Brazilian discussions of race, nation and human/animal dialectics, from Oswald’s antropofagia to the activities of animal rights advocates.

This discussion of Regina Rheda will be revised into a chapter of Isfahani-Hammond’s current book project, “Animal Bodies: Race, Species and Brazilian Cultural Theory.” From Machado de Assis’s human-cum-canine protagonist in Quincas Borba (1891) to the farm animals for slaughter in Cláudio Assis’s Amarelo Manga (2002), non-humans are intrinsic to Brazilian imaginaries of postcolonial conflict and racialization. Through readings of texts ranging from Oswald de Andrade’s Manifesto Antropófago (1928) to Regina Rheda’s Humana festa (2008), she interrogates topics such as nature, animals and the indigenous; the body as machine; plantation violence and cannibalization; sexuality and animality; and the question of meat. How have animal figures sustained or undermined colonial and slavocratic systems of domination?
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Palestra de Regina Rheda numa mesa redonda de escritores brasileiros, no congresso da Brasa, New Orleans, 2008.

É uma honra estar aqui com minhas talentosas colegas escritoras e todas essas outras pessoas brilhantes.
O que mais me motiva a escrever  ficção são os temas, e não o ato em si da escrita. Até agora, poucos foram os momentos em que me sentei ao computador para batucar palavras aleatórias e esperar que, atrás dos primeiros batuques, viessem outros para formar uma batucada. E seja qual for o meu tema, estou sempre determinada a explorá-lo com humor, o que significa que estou destinada a escrever muitas coisas politicamente incorretas. Já dizia Mark Twain: “There is no humor in heaven”.
Dentre os temas que tenho trabalhado, vou falar hoje de dois. Um é a experiência de animais humanos em terra estrangeira. Outro é a injustiça que os animais humanos cometem contra os animais não-humanos pelo fato de usá-los, injustiça que parece maior ainda quando nós nos damos conta de que 99,9% do uso que fazemos dos animais, causando-lhes sofrimento e morte, são só para nosso prazer, nossa diversão e nosso comodismo.
Sobre a experiência de animais humanos em terra estrangeira,  vou ler um trechinho do meu primeiro romance, Pau-de-arara classe turística,  de 1996. Saiu no Brasil pela Record e está publicado em inglês num volume da University of Texas Press. Nele eu explorei as peripécias da personagem pícara Rita Settemiglia, uma jovem brasileira branca, de classe média e de descendência italiana, que troca um futuro incerto no Brasil pelo sonho da cidadania européia. Ela emigra para a Inglaterra e em seguida para a Itália, e trabalha ilegalmente, submetendo-se a atividades muito aquém de sua qualificação profissional e, em certos casos, incompatíveis  com suas convicções morais, enquanto espera obter um passaporte italiano. Entre as tentativas que Rita Settemiglia faz de se estabelecer na Inglaterra, está a de se aproximar do agente de imigração Ian Weston com a intenção secreta de se casar com ele, virar cidadã inglesa e então se divorciar o mais rápido possível. Ian Weston, de sua parte,  faz planos secretos de passear com ela pelo Texas, aliando um velho sonho turístico a um sonho de sexo. No trecho a seguir, em que Ian Weston recebe um telefonema de Rita Settemiglia, predomina o discurso indireto livre. Por meio desse discurso indireto livre percebemos que a mãe adotiva de Ian, a idosa Mrs. Weston, não sabe direito o que está acontecendo  com o filho e não gosta nem um pouco do que pressente:

- Aqui é Ian. Alô, Rita! Como vai? – o agente virou-se para a parede,  dobrando-se sobre o fone como um ponto de interrogação.
Mrs. Weston sentiu uma pressão em várias regiões do corpo, não sabia dizer se nos músculos, nas articulações ou nos tendões. Então era a tal da estrangeira outra vez. Era por esse telefonema que Ian esperara a tarde inteira, zanzando pela casa como um velho aposentado, os olhos um pouco mais redondos e mais abertos do que o normal.
Mrs. Weston não pudera tomar seu chá na mesa da sala, como fazia todas as noites, porque ele ocupara o móvel com uma papelada infernal, que examinara fazendo um bico com o lábio inferior, mania que conservava desde menino, quando olhava revistas coloridas sentado no chão. Primeiro, resolvera estudar o atlas geográfico, rastreando os confins bárbaros da América do Sul. Depois, espalhara sobre o móvel  folhetos turísticos com fotografias do Texas. Em seguida, depositara o queixo na palma das mãos, com os cotovelos fincados na mesa, e nessa posição permanecera por mais de trinta minutos, assistindo, no teto, ao seu desfile particular de quimeras.
- Sim, um wine-bar seria interessante. Está bem, podemos nos encontrar direto lá, se você preferir. Eu também gostaria de estar de volta cedo. Até mais tarde.
Ian ia encontrar-se em um bar com uma americana, talvez do Texas ou então de Buenos Aires, chamada Rita. Uma boêmia, uma biscatezinha. Moças honradas não se encontram em botequins.

No meu conto  “O Santuário”,  publicado numa antologia de vários autores brasileiros em 2002,  depois publicado em inglês no mesmo volume da Utexas Press, e que vai ser republicado em inglês em janeiro de 2009 na antologia Luso-American Literature pela Rutgers University Press, eu trabalhei ao mesmo tempo com meus dois temas favoritos – a experiência estrangeira e a injustiça humana contra os animais. O Santuário” começa assim:

João decidira permanecer ilegal nos Estados Unidos para progredir na vida, mas foi rebaixado de ladrão de filé de frango congelado a ladrão de galinhas de terreiro. Culpa (ele tinha certeza) da sua confiança no pessoal da igreja e nos imigrantes ilegais que a igreja tentava ajudar. Agora estava comprometido, tinha de enfrentar a situação. Guiado pelo mexicano Juan, marcara os xis nos quadradinhos do formulário em inglês que o pessoal da igreja entregara a eles dois. Os xis garantiam: João tinha experiência no trabalho proposto, era vegetariano e queria viver seis meses de graça no Silver Sunshine Farm Sanctuary, como vigia e faz-tudo, em regime de semivoluntariado, tempo integral.
Sunshine, silver, inglês, americano, carajo. Com o espanhol João até se virava, mas o inglês era diferente demais do português. João tentava acordar da alucinação que era o país dos outros, fisgar algum sentido nas falas e nos gestos das pessoas, montar um cenário palpável em volta do corpo zonzo. Juan, que tinha mais jeito para idiomas, explicava algumas coisas para o brasileiro, em portunhol. Silver Sunshine quere dicir Raio de Sol de Plata, e sanctuary quere dicir… Quer dizer santuário, cortou João, fazendo os xis nos quadradinhos, sou ruim de inglês mas não sou burro.
O trabalho no santuário era muito diferente daquele que João imaginara. Ele não limpava cocô de pomba de imagens de santos, mas tirava cocô de galinha dos abrigos onde elas faziam ninhos; não monitorava visitas de fiéis a alguma capelinha, mas conduzia vacas e carneiros entre pastos e currais; não assistia a curandeiros ou médiuns, mas ajudava veterinários no tratamento de perus obesos, ovelhas mutiladas, porcas estafadas, bezerros anêmicos. Si, sanctuário puede ser um lugar para la gente facer oraçons, disse Juan, pero el sanctuário donde nosotros trabajamos es un refúgio para animals maltratados em hacendas. Por que não explicou antes, mexicano da porra?
         Como se João fosse entender fácil a explicação. No Brasil, ele jurava, nunca tinha ouvido falar naquilo. Santuário para cuidar de bicho de fazenda sofrido, só em país rico, de gente sem o que fazer. País de maricóns, disse o Juan. Non vê los veterinários de Silver Sunshine? Magricelos, delicadinhos. Já a diretora, o outro completou, a Miss Susan Wolcott, putaquepariu, se aquilo for mulher, eu sou uma galinha poedeira. Acá es todo ao contrário. Mujer parece hombre, hombre parece mujer e gente trabaja para bicho. Riam, João mordia uma coxa de galinha, Juan comia mais taco.

Agora estou reunindo os dois temas também no meu novo romance,  chamado Humana festa, que vai ser publicado no Brasil em outubro pela editora Record. Entre os personagens principais do romance estão a jovem universitária Megan, americana, vegan e ativista  pelos direitos animais, e seu namorado brasileiro, Diogo, que estuda Faculdade de Floresta na Flórida e está se tornando vegano, ou vegan,  por influência dela. (Vegan, para quem não souber, é uma postura ética de respeito ao direito que os animais têm de não ser usados como propriedade ou recursos dos humanos). Um conflito vivido pelo casal é o fato de que os pais de Diogo são donos de 4 fazendas de gado e porcos no Brasil. Eles dois combinaram de  usar um bloquinho de anotações,  onde Diogo marca todas as vezes em que ele acha que Megan está exagerando na pregação  pró-veganismo,  e Megan marca todas as vezes em que Diogo está sendo especista, isto é, está discriminando um ser por causa da sua espécie. O romance começa assim:

-- Fuckin’ animal!
Megan lançou a Diogo um olhar de lâminas. Ele acabava de cometer o erro de sempre. Tinha chamado de animal um motorista infrator. Megan fez uma marca no bloquinho:
-- Mais um ponto para mim.
-- Desculpe, Megan, animal não é insulto, eu sei. Mas, na pressa de xingar, a gente não consegue escolher o vocabulário certo e acaba usando o reacionário.
Megan suavizou a censura dos olhos, apertou-os no sorriso de namorada. Ela entendia. A maioria das pessoas demora para aprender coisas novas. E Diogo ainda tinha de trabalhar dobrado: falar inglês e evitar a linguagem especista ao mesmo tempo.
O infrator ultrapassou à direita, pulverizado nos pneus estridentes.
-- Watch out, you stupid hog! -- gritou o brasileiro.
Outro corte rápido dos olhos claros. Outro ponto a favor de Megan. Diogo desculpou-se, É a última vez, honey, juro.
Megan aceitou a desculpa num abraço lateral. Tudo bem, por enquanto, o namorado fazer uma referência desrespeitosa a um inocente porco. O mais importante –- por enquanto -- é que ele não comia mais porco.

Mesmo que o Humana festa seja um livro bem-humorado, a escravidão  dos animais – isto é, a escravidão de seres que têm interesse em não ser dominados, usados, maltratados e mortos - é um tema terrível  demais para não ser tratado a sério. Um momento grave do romance é o que vou ler agora. Nesse trecho, Megan está sendo submetida à cirurgia de Mohs, um procedimento para retirar um tumor maligno na pele, chamado “câncer basocelular”, que apareceu na pálpebra de um de seus olhos. O cirurgião, Dr. Stanley, tem como hobby a caça, e a sala de espera de sua clínica é decorada com os animais caçados que ele mandou empalhar. Durante a cirurgia, Megan mantém o outro olho aberto e nós acompanhamos as suas reflexões:

Abrir um olho era bom para frear os pensamentos. No escuro, eles disparavam, atropelavam-se com os paradoxos e o medo. No claro, respiravam, ganhavam pontuação e lógica. O basocelular é menos grave que o espinocelular vírgula que é menos grave que o melanoma ponto e vírgula quem tem o primeiro está mais suscetível a ter os outros dois ponto. O olho de Megan tentou caçar no teto algum pensamento alegre. Não mata, geralmente, mas desfigura, o basocelular, que tende a se manifestar de novo e que, se não tratado logo, pode destruir nervos, cartilagens e ossos da região vizinha ponto. Megan sentiu na testa o ar quente que o doutor Stanley soltava pelo nariz. Aquele ar quente demorava uma eternidade para viajar até a testa dela e, quando chegava, era como se o doutor Stanley não estivesse perto. Impossível transpor o vácuo que se forma entre um ser com medo e o resto do universo. A dor excruciante, o medo mortal são só de quem os sente. Megan poderia compartilhar com Sybil ou Diogo a dor de um câncer e o medo de morrer, mas só no nível conceitual. Sofre e morre em solidão cada um dos bilhões de seres que sofrem ao mesmo tempo e morrem ao mesmo tempo, todos os dias, nas guerras, nos matadouros, nas celas, nas jaulas. O olho passou do teto para o rosto do cirurgião. Bonito, aquele rosto. Ainda bem. Pior se fosse um estrupício. Ter de olhar um estrupício num momento tão crítico seria mais patético. O doutor Stanley era um quarentão com físico de atleta e cabelo. Seus olhos azuis não saíam da pálpebra de Megan, e ela imaginou que pudessem se aventurar por outras partes de seu corpo, em uma oportunidade adequada. As mãos dele eram suaves como sopros -- e criminosas. Curavam, mas também matavam. O doutor Stanley era contraditório. Será que existe alguém que não seja? Em uma cultura toda estruturada sobre a exploração dos seres vulneráveis, parece faltar consistência ética até ao mais correto dos humanos. O doutor Stanley deu-lhe um sorriso e uma piscada, e o olho de Megan fugiu para a parede. Seus pensamentos marcharam para o teto em fila ordenada. Ninguém é puro. Ela, por exemplo, militava pela abolição do uso de animais em pesquisas científicas, mas não tinha como escapar da mesma medicina equivocada que os sacrificava aos milhões, nos laboratórios. Fazer o quê? Suicidar-se? As coisas não mudam de repente e, enquanto um monte de gente não aprender que os animais não são meios para os fins da humanidade, uma ativista que se preze tem de continuar a jornada, mesmo manca, um pé ágil na trilha reta, o outro atolado na torta. Seu olho rastejou de volta para o rosto do cirurgião e experimentou ficar ali mais um tempinho. A idade riscava com leveza a pele em torno daquela boca um tanto enjoada, de um enjoamento de cereja doce demais, quase de batom. Em que trechos daqueles riscos paravam de se imprimir as curas do doutor Stanley e começavam a se imprimir seus crimes? Cada humano com suas contradições. Megan, por exemplo, que lutava pela proibição da caça, agora se excitava com a proximidade do rosto bonito de um caçador, esquecida do namorado que a esperava na sala e que se oferecera para pagar a cirurgia. Megan empurrou o olho de volta à parede, prendeu-o contra ela com a força da culpa. Talvez o doutor Stanley não fosse contraditório, mas consistente em sua crueldade, violador de organismos sencientes com o rifle e o bisturi. O doutor Stanley, sádico na caça e na cirurgia de Mohs, deixaria de propósito, na pálpebra da Megan, um restinho de câncer que se espalharia pelo seu organismo até matá-la. Não haveria prova do crime, ninguém poderia fazer nada por ela, prisioneira de guerra no laboratório frio e isolado, sufocado de medo, fedendo a químico, onde não se permite dó, de onde não escapa nenhum pedido de ajuda, de onde os animais só saem mortos.

E deixo vocês com essas imagens horríveis  de um laboratório de cobaias.