Obra



Arca sem Noé - Histórias do Edifício Copan (Rio: Record, 2010). Prêmio Jabuti-1995. Prêmio Maison de l'Amérique Latine da Radio France Internationale-1994 para o conto "O mau vizinho". Publicado pela primeira vez em 1994, Arca sem Noé - Histórias do Edifício Copan marca a estreia de Regina Rheda na literatura. [Este livro está publicado também em inglês].

"A autora conseguiu criar uma literatura original, rompendo, com fino bom humor e imaginação, os limites entre o real e o imaginário". (Prêmio Jabuti 1995 - catálogo dos vencedores).

"As histórias do Copan são como pedras preciosas em um colar -- cada qual brilhante por si mesma, mas, quando vista no todo, é parte de um desenho maior, habilmente interconectado". (Earl E. Fitz, professor de literatura, espanhol e português na Vanderbilt University).

Humana festa (Rio: Record, 2008) é um romance pioneiro que tem como tema principal o veganismo/direitos animais. De leitura envolvente e espirituosa, explora conexões entre o feminismo, o ambiente e a abolição da exploração animal, sendo de grande interesse para todo tipo de leitor. [Este livro está publicado também em inglês].

"Humana festa, o quinto livro em português de Regina Rheda, é uma obra original. A temática é de uma atualidade total e urgente". (Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária e literatura comparada na Unicamp).


"Este maravilhoso romance de Rheda entrelaça as questões urgentes do veganismo, dos direitos animais, do ambientalismo, da biopolítica, da legitimidade da hegemonia humana e suas consequências para a sobrevivência do planeta, e do dano causado pelo patriarcado de um modo que internacionaliza o Brasil e a vitalidade progressista da literatura e da cultura brasileiras como nunca antes" (Earl Fitz, Inter-American Literature: A Concise History).

"Rheda aplica seu singular engenho e olho para contradições à questão da exploração dos animais não-humanos. Ela entretece dois cenários paralelos - o interior da Flórida afeito às armas e à bíblia, e o interior de São Paulo com suas fazendas e seu agronegócio, onde propriedades trabalhadas por escravos foram substituídas por fazendas intensivas de gado e porco que são operadas por trabalhadores mal pagos e subsidiadas por conglomerados americanos. [...] Uma incisiva exposição da ansiedade dos ricos proprietários de terras quanto a reterem seu poder, e da entrelaçada exploração de classe e espécie da qual esse poder depende". (Alexandra Isfahani-Hammond, Chasqui - Revista de Literatura Latinoamericana).

Leia também:
orelha do Humana festa
Algumas entrevistas com a autora: Editora Record, programa FrenteVerso (rádio) - partes 1 - 2 - 3, Suplemento Literário de MG (págs. 27-29) ANDA,  Jornal Debate, Examiner (em inglês).

Pau-de-arara classe turística é um romance sobre imigrantes brasileiros na Europa. Publicado originalmente pela Editora Record em 1996, está agora disponível em e-book numa edição de 2013. [Este livro está publicado também em inglês].

"Bem-humorada e despretensiosa, a linguagem de Rheda foge de clichês e carrega em descrições saborosas [...] traça, de quebra, um perfil arguto da classe média londrina e revela os horizontes limitados de uma família dos confins da Calábria." (Bernardo Ajzenberg, Mais!, Folha de São Paulo).

Mais (em inglês e português) sobre o romance Pau-de-arara Classe Turística 


O romance Livro que vende combina uma intriga em prosa com um cordel pós-moderno, ilustrando aspectos da globalização econômica e cultural. Foi publicado em 2003 pela Editora Altana.

"Livro que vende é uma divertida reflexão sobre o romance e suas impossibilidades, algo bastante discutido, mas nem sempre demonstrado com tanta veemência e bom humor".  (Moacir Amâncio, Caderno 2, O Estado de São Paulo).

Leia a resenha completa do Livro que vende


Contos avulsos:
"O santuário", conto sobre imigrantes e defensores dos direitos animais nos EUA, é publicado na antologia Pátria estranha (São Paulo: Nova Alexandria, 2002). [Este conto também está publicado em inglês aqui e aqui].

"O santuário" aborda a situação de ilegalidade de brasileiros nos Estados Unidos de forma contundente, ilustrando sua condição subalterna e precária". (Stefânia Chiarelli, Idéias, Jornal do Brasil).

"Dona Carminda e o príncipe", história sobre a tirania de humanos contra humanos e outros animais, é publicado na antologia Histórias dos tempos de escola (São Paulo: Nova Alexandria, 2002). Este conto também está publicado em: português e inglês ("Miss Carminda and the Prince" - tradução de Lydia Billon) na edição de outono de 2004 da revista norte-americana Meridianse em croata (tradução de Jelena Bulic) na revista literária Sic, da Universidade de Zadar.

"Nesta história brincalhona, Rheda reconta, com grande imaginação, o mito da princesa e seu sapo; aqui, o príncipe da Dona Carminda é um anfíbio que escapa do Instituto de Educação Domingos Jorge Velho!" (Myriam Chancy, escritora e editora).

"A frente", história sobre globalização e política ecofeminista em uma aldeia imaginária da Amazônia, é publicado na antologia Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Organizador: Luiz Ruffato. Rio: Record, 2005). [Este conto está publicado também em inglês].

"Eu e meus alunos também lemos alguns dos contos mais recentes de Rheda, como “A frente”, e também os achamos maravilhosos. Ficamos impressionados com o humor irônico (um dos elementos principais da literatura brasileira) de Regina, sua visão do lugar do Brasil em nosso mundo globalizado e seu espírito profundamente humano". (Earl E. Fitz, professor de literatura comparada, espanhol e português na Vanderbilt University).


O volume First World Third Class and Other Tales of the Global Mix é publicado pela editora norte-americana University of Texas Press (2005). Esse volume contém a tradução de Arca sem Noé, de Pau-de-arara classe turística e dos contos "A princesa encantada" (que está no livro Amor sem-vergonha) e "O santuário", além do conto "The Front", escrito originalmente em inglês.

"O humor sagaz, a ironia, a paixão política e a sensibilidade cosmopolita de Rheda estão habilmente transmitidos neste volume tão bem-vindo e tão bem traduzido". (Daphne Patai, professora da University of Massachusetts-Amherst, Handbook of Latin American Studies, 2007).

"Ler os contos e o romance de Rheda foi uma prazerosa descoberta para mim… Seu estilo é muito espirituoso, repleto de deliciosa - às vezes devastadora - ironia e de cativantes imagens poéticas. Seu livro, em suma, é difícil de largar". (David George, professor de espanhol da Lake Forest College e crítico literário).

"Eu gostaria de dizer algumas palavras elogiosas a uma das novas estrelas mais brilhantes da literatura brasileira, Regina Rheda. Na primavera, eu e meus alunos lemos vários contos de Regina e ficamos extasiados com eles! Todos sentimos que Regina mais do que merece ser herdeira de grandes brasileiros como Machado de Assis, Drummond e Clarice Lispector. Mais do que isso, temos certeza de que Regina vai desempenhar um importante papel para o Brasil, à medida que o país assumir seu devido lugar no cerne do desenvolvimento do novo e empolgante campo de estudo da literatura interamericana. Que tenhamos mais de Regina Rheda, tanto em português quanto em tradução para o inglês!”. (Earl E. Fitz, professor de literatura comparada, espanhol e português na Vanderbilt University).

Humana Festa, A Novel (Zip/EP, 2012), romance pioneiro que tem como tema principal o veganismo/direitos animais. Tradução do original Humana festa. Ver acima.




Amor sem-vergonha (Rio: Record, 1997) é uma coletânea de contos.

"A paulista Regina Rheda, uma das revelações da literatura, surpreende." (Ivan Claudio, IstoÉ).











A astrobolha de sabão (São Paulo: Editora Rios, 1983). Livro infantil com texto de Regina Rheda e ilustrações de Ana Mara Abreu.

Literatura, talento e consciência: Regina Rheda

Entrevista publicada pela ANDA em 22 de março de 2009

 Paulista de Santa Cruz do Rio Pardo, Regina Rheda é uma escritora de grande talento, com trabalho reconhecido no Brasil e no exterior. Formada em Cinema pela Universidade de São Paulo, ela estreou na literatura em 1994 com o livro de contos Arca sem Noé –Histórias do Edifício Copan, que ganhou o prêmio Jabuti no ano seguinte. Em português, tem cinco livros publicados e três participações em antologias de contos. Dois de seus livros e algumas histórias avulsas estão publicados também em inglês, em um volume da University of Texas Press. Suas obras têm sido estudadas em cursos de literatura brasileira de várias universidades norte-americanas e analisadas em ensaios acadêmicos nos Estados Unidos. Em 2006, Regina Rheda traduziu o livro sobre direitos animais Jaulas vazias, do filósofo Tom Regan (Editora Lugano); em 2007, passou a fazer traduções autorizadas de textos do advogado e filósofo Gary L. Francione, cuja abordagem dos direitos animais tem o veganismo como princípio fundamental. Regina, vegana desde 2000, lançou recentemente o livro Humana festa (Editora Record), o primeiro romance brasileiro a abordar, como tema principal, o veganismo e os direitos animais. Nesta entrevista concedida com exclusividade à ANDA para Alexandra Isfahani-Hammond, professora de literatura luso-brasileira da Universidade da Califórnia-San Diego; Fabiane Niemeyer, do grupo de defesa animal Gato Negro; e Rafael Jacobsen, membro da SVB-Porto Alegre e escritor, ela fala sobre a sua trajetória, o novo livro, veganismo e outras questões relacionadas aos direitos animais. Acompanhe.

Fabiane – 1) Qual foi seu primeiro contato com o veganismo e o movimento de defesa animal? Conte-nos um pouco da sua história e o envolvimento com os direitos animais.
Regina – Eu fui uma carnívora inveterada até a idade de 43 anos. “Direitos animais” para mim era uma coisa romântica e distante: salvar as baleias da Antártida, salvar as focas do Canadá. E mesmo achando horrível matar animais para comer, torturá-los em laboratórios, prendê-los em circos, eu nunca tinha parado para pensar sobre o problema, porque achava que os humanos eram mais importantes do que os animais e precisavam usá-los. No máximo, cheguei a pensar que, um dia, acabaria virando vegetariana.
Foi numa tarde do ano 2000, um ano depois de me mudar para os Estados Unidos, que vi na internet uma explicação sobre tudo que os animais sofrem na indústria, desde o momento em que nascem até o momento em que são mortos. A maior parte das informações tratava de fazendas de produção intensiva. Fiquei chocada e comecei a chorar. Chorei feito uma condenada. E jurei que nunca mais consumiria nada que fosse feito às custas dos animais. Naquela noite, meu jantar foi baseado somente em plantas. O curioso é que eu não conhecia, ainda, as palavras vegano e veganismo. Só descobri esses conceitos algumas semanas depois, conversando com uma jovem numa festa. Ela me disse que era “ovovegetariana” e que eu era vegana.
Para tentar fazer alguma coisa pelos animais, além de ser vegana eu passei a doar dinheiro a algumas organizações como a Humane Society, a PETA, a ONG da Doris Day... Eu alternava, às vezes dava dinheiro para uma, às vezes para outra. Um amigo do meu marido, vendo que eu me interessava pela questão, me deu de presente o Animal Liberation, do Peter Singer. Li e, por influência desse livro e das organizações para as quais eu doava dinheiro, passei uns bons anos com uma ideia confusa sobre o que seriam “direitos animais”, sem saber bem se o problema-chave era só o sofrimento dos animais ou o fato de os usarmos, se o certo era não usá-los nunca ou usá-los de vez em quando, se era melhor ser vegano mas se também estava certo ser ovolactovegetariano, ou mesmo comer carne orgânica... Apesar dessa confusão, continuei com meu veganismo.
Então a editora Lugano, de Porto Alegre, me chamou para traduzir Jaulas vazias, do Tom Regan. A partir do Jaulas vazias ficou claro para mim que “direitos animais” significa não usar animais como recursos, mesmo que o uso envolva o mínimo de sofrimento possível. Mas eu continuei mandando dinheiro para aquelas organizações. Finalmente, em setembro ou outubro de 2006, recebi uma newsletter noticiando um debate entre duas posições do movimento nos Estados Unidos: uma dizia que fazer campanhas para diminuir o sofrimento animal na indústria levaria ao fim da exploração animal; outra dizia que essas campanhas são contraproducentes e reforçam mais ainda a exploração dos animais. A PETA e a Humane Society estavam entre as principais representantes da primeira tendência. E um advogado chamado Gary Francione era um tenaz defensor da segunda. Francione dizia também que os defensores dos animais deveriam parar de doar dinheiro para as organizações como aquelas para as quais eu doava, e deveriam tornar-se veganos e empregar seu tempo de ativismo educando sobre o veganismo.
Eu nunca tinha lido nada do Francione, só tinha visto seu nome em uma bibliografia de algum livro, se não me engano de uma feminista. Mas essa postura dele me chamou a atenção e fui ler sua entrevista. Tudo que ele falou ali fez perfeito sentido para mim. Depois de fazer uma pesquisa no Google, entrei em contato com ele para esclarecer umas dúvidas. Parei de doar dinheiro para aquelas organizações e, durante os anos seguintes, traduzi quase todo seu website, que apresenta a abordagem dos direitos animais abolicionista. Em conjunto com ativistas que contatei em listas brasileiras de discussão pela internet, divulguei essas traduções. Agora, quando faço doação, é para o santuário de animais Peaceful Prairie, que é abolicionista e educa as pessoas a serem veganas.
Fabiane – 2) No romance Humana festa você aborda as questões dos direitos animais, feminismo, bulimia e reforma agrária. Você está envolvida com outros movimentos sociais? Qual a relação dos direitos animais com outras lutas sociais por igualdade e justiça?
Regina – Não estou diretamente envolvida com movimentos sociais. Aprendo sobre eles com as notícias ou, no caso de precisar, pesquiso. Fiz parte do movimento estudantil quando estava na faculdade, ainda durante a ditadura, nos anos 70, e durante esse movimento eu ganhei consciência política. Aderi a uma greve para derrubar um diretor reacionário, fiz passeata pelas liberdades democráticas, participei de assembleias, grupos de estudo, grupos de teatro... Queríamos o socialismo. Vi formar-se o embrião daquilo que depois seria o PT. Passei pouquíssimo tempo no movimento, mas o que vivi foi crucial para minha formação. Depois fiquei durante um longo período entre a apatia política e o cinismo...
Com o envolvimento na defesa animal, voltei a pensar mais seriamente nas outras lutas sociais por igualdade e justiça. Afinal, se “direitos animais” significa justiça para todos os seres sencientes, significa justiça também para os humanos, que são seres sencientes.
Não quero dizer com isso que os ativistas pelos direitos animais tenham a obrigação de se engajar em todas as outras lutas; na verdade acho que deve ser melhor eles se concentrarem mais nos animais. Isto porque a instituição da escravidão humana pelo menos já foi abolida, ao passo que a instituição da escravidão animal continua fortíssima e, enquanto ela existir, não vai ser possível mudar de verdade a situação dos animais. A luta pelos animais é muito mais dura, porque até mesmo o mais oprimido dos humanos acredita que está certo explorá-los... Mas todas as formas de opressão estão inter-relacionadas e têm raiz na mesma visão de mundo excludente, autoritária e predatória.
Enfim, o que aprendi com ou sobre os movimentos sociais, incluindo o de defesa animal – e a ligação entre todos eles – acabou me influenciando na criação dos capítulos do meu livro em que aparecem os empregados militantes da fazenda do Bezerra Leitão.
Alexandra – 3) Humana festa é um romance que trata dos direitos animais com humor, qualidade que, segundo muitos, faz falta entre os veganos. Como você compararia o humor, como instrumento para induzir identificação com o sofrimento dos animais, com as táticas da PETA e outras organizações e ativistas que usam imagens e descrições gráficas? Pensando nas táticas mais eficazes para induzir a empatia com a causa dos direitos animais, ando pensando em Susan Sontag que, em Regarding the Pain of Others, nos adverte que imagens do “corpo em agonia” nem sempre estimulam a empatia. Você estaria de acordo?
Regina – Eu acho que imagens de animais em agonia nem sempre estimulam a empatia, mas normalmente estimulam, sim. O sofrimento é empático porque ninguém quer sofrer. Ninguém quer estar na pele daquele que está sofrendo. Acho que imagens documentais de animais sofrendo pelo fato de serem usados pelos humanos são bastante eficazes na educação para o veganismo, desde que os ativistas esclareçam muito bem, sempre, que a solução para o problema não é continuar usando animais que sofram menos, mas sim parar de usá-los de uma vez por todas. Isso não quer dizer que não possa haver momentos de humor nas ações dos ativistas. Mas é preciso tomar muito cuidado com esse humor, porque a questão animal ainda é vista pelo público como uma coisa ridícula. Agregar palhaçada ao que já é percebido como ridículo só pode ser contraproducente para a defesa animal.

Já os meus contos e o romance que abordam a questão animal, por serem ficção, por serem invenção artística, têm uma natureza diferente da natureza do ativismo propriamente dito. Eles têm mais liberdade, admitem (e se enriquecem com) ambivalências, complexidades, irreverência, ao passo que o ativismo é mais focado, mais dirigido.

O Humana festa poderia ser usado em uma ação educativa, mas só como complemento, ilustração, atividade lúdica. Ele não substitui o panfleto nem o texto teórico, muito menos a conversa do educador com o interessado. Ele tem humor porque humor me dá prazer de escrever e torna a leitura prazerosa. No Humana festa, tentei escrever o menor número de cenas de sofrimento possível, só o suficiente para descrever aspectos da exploração animal e tentar causar empatia. Tentei usar humor sempre que possível. Usar mais humor do que horror funciona no romance porque ajuda a manter o leitor interessado no livro, mas acho que não funcionaria numa ação educativa na rua, por exemplo.
Rafael – 4) O seu romance Humana festa é uma das poucas obras de ficção em que o tema central (e mais do que declarado) é o veganismo. Mesmo não sendo, na maioria dos casos, o tema prevalente, a questão dos direitos animais aparece ou, pelo menos, se insinua em várias obras literárias. Na sua visão de ativista e escritora, quais obras ou autores você diria que são mais relevantes nessa vertente?
Regina – Não sei se pode ser chamada de “direitos” a questão animal que se insinua nessas várias obras literárias. Eu não li toda a ficção deste mundo e sei que há várias obras que tratam dos animais com diferentes enfoques ou graus de preocupação. Mas quantas delas, especialmente as ocidentais, vão além da preocupação com o sofrimento e a crueldade, para realmente sugerir, seja de que forma for, que os animais não deveriam ser usados como meios para os fins dos humanos, ou que têm o direito de não ser propriedade? É difícil encontrar um romance ou um livro de contos com essa característica.
Entre autores relevantes da literatura brasileira, um que demonstra algum tipo de preocupação com animais é Guimarães Rosa em diferentes trechos de sua obra, por exemplo, em seu conto “Meu tio o Iauaretê”, onde um matador de onças se arrepende de seu ofício. De Machado de Assis há o “Conto alexandrino”, em que animais são vitimas de cientistas, e “A causa secreta”, em que são vítimas de um sádico. No romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a cachorrinha Baleia é uma personagem com personalidade, e não um objeto. Mas eu acho que é o sul-africano J. M. Coetzee que tem as obras de ficção mais relevantes com respeito à visibilidade da questão da ética animal; ele tem um livro especificamente sobre isso, A vida dos animais, além de uma personagem de grande destaque em pelo menos dois de seus livros, que é a vegetariana Elizabeth Costello. Mas, até agora, a obra de Coetzee, se é que às vezes transcende um pouco o sofrimento e a crueldade que os humanos impõem aos não-humanos, não chegou a assumir o veganismo e a abolição.
Rafael – 5) Mario Vargas Llosa, referindo-se aos romances de Ayn Rand, uma das mais ferozes defensoras da liberdade econômica, afirmou que "toda literatura edificante e de propaganda é ilegível". Você acredita que a arte (seja ela literatura, pintura, teatro, música) pode ser uma forma efetiva de ativismo pelos direitos animais sem que a função estética da obra saia prejudicada? Como você, pessoalmente, lida com essa questão do "equilíbrio" entre arte e ativismo nos seus textos?
Regina – Eu teria algumas coisas para dizer sobre o laissez-faire, que é defendido pela autora que você mencionou, mas prefiro ir direto ao que mais nos interessa aqui.
Para mim, não há assunto proibido em romance ou conto. Mas a minha preocupação principal, ao escrever ficção, é a de fazer uma obra de arte literária; não é a de fazer ativismo. Costumo escrever narrativas movida por um tema que me apaixone. Desta vez, meu tema foi direitos animais.
Para mim, a razão principal para a existência de um romance é permitir ao autor que ele se expresse através de sua obra. O escritor precisa ter total liberdade para se expressar, qualquer que seja o assunto escolhido e qualquer que seja seu estilo. Essa liberdade lhe permite, inclusive, escolher escrever de alguma forma que, no seu entender, ajude a melhorar o mundo. Ele poderá, com seu romance, conseguir ajudar a acabar com alguma injustiça, mas esta não é a principal finalidade de um romance. Esta é (ou deveria ser) a principal finalidade de um livro teórico de caráter filosófico ou científico, ou de ensaios e panfletos educativos. Mas um romance, justamente por poder expressar qualquer coisa e estar aberto a todas as possibilidades formais, não é obrigado a ter o rigor científico, ético ou político dos textos teóricos. Ele pode ter esse rigor (por exemplo, se for um romance de ideias, ou engajado etc.), mas não é obrigado a ter.
Em resumo: eu escrevi o Humana festa para me expressar livremente por meio de um trabalho artístico sobre um tema que considero apaixonante; de quebra, tentei ajudar a melhorar o mundo.
Para equilibrar representação, emoção e conceito da maneira mais artística possível (se é que há um consenso quanto ao que seja “artístico”, nos dias de hoje...), um dos recursos que utilizei foi o humor. Em momentos que pudessem soar mais militantes do que literários (de novo: será que há consenso quanto ao fato de esses dois adjetivos serem excludentes, e até que ponto isso importa, nos dias de hoje?), eu procurei incluir algum fator engraçado ou irônico.
Mas não foi muito fácil trabalhar, com humor e ironia, um tema delicado e, ao mesmo tempo, terrível, como é o tema da escravidão animal. Procurei usar humor sempre que possível, mas com muito cuidado para que, em determinados casos (por exemplo, quando trato de Megan e Sybil), a graça fosse percebida pelos leitores como restrita às personagens e às situações que elas vivem, e não como um sinal de desprezo da autora pelos esforços dos ativistas que estão tentando expandir o veganismo na vida real.
Também tentei trabalhar o humor, além de outros fatores, de forma a deixar o mais claro possível, para o leitor, que certas atitudes de certos personagens têm uma atitude correspondente criticável na vida real. Outras vezes, fiz uso de ironia sutil e ambígua, pelo puro prazer de escrever ironias. Mais importante ainda, tomei muito cuidado para jamais banalizar a pavorosa situação dos animais.
Humana festa é um romance com muitas ideias e alguns personagens que militam por uma causa, então outra preocupação minha foi colocar as frases que são um pouco mais “panfletárias” somente na boca desses personagens, já que, se eles fossem gente de verdade, diriam aquelas frases mesmo. Por exemplo, as personagens Megan e Sybil são ativistas pelos direitos animais, então eu permiti que, às vezes, elas dissessem frases um pouco mais didáticas. Mesmo assim, tentei amenizar o didatismo com algum elemento humorístico. Outra preocupação minha foi usar imagens poéticas.
Em cada letra que escrevi desse romance eu me apliquei ao máximo para dar prazer ao leitor. Escrevo sempre atenta ao prazer da leitura. Se apresento questões terríveis ou desagradáveis, tento equilibrá-las com elementos prazerosos: humor, surpresas, ideias inusitadas, metáforas, narrativa envolvente. E sempre tenho em conta que, depois que o romance passar das minhas mãos para a esfera pública, ele será lido como a esfera pública quiser...
Acho que esse problema da literatura edificante que você levantou pode ser discutido no contexto do debate “arte engajada” versus “arte pela arte”. A verdade é que a literatura engajada tem sido ou valorizada ou desprezada, dependendo da época, do país e do grupo de intelectuais predominante nos meios acadêmicos em que ela tem sido discutida. De um modo geral, no momento atual, o que acontece no meio literário e acadêmico do Brasil (onde nasci e vivi quase toda minha vida) é diferente do que acontece no meio literário e acadêmico dos Estados Unidos (onde moro). No Brasil está predominando um grupo ligado à Teoria Literária que tende a rejeitar a priori a literatura engajada. Nos Estados Unidos está predominando (e aumentando ainda mais, com a chegada das gerações mais jovens) o grupo do Cultural Studies, cuja preocupação principal é o conteúdo ideológico das obras.
Mas, seja lá qual for a tendência predominante, uma pergunta que precisa estar sempre presente é: quem decidiu, e por que decidiu, o que deve e o que não deve fazer parte de uma obra de arte literária? Quem se beneficia dessa decisão e quem se prejudica? No caso da opressão animal, que quase ninguém consegue enxergar neste mundo (que é antropocêntrico) e portanto é praticamente invisível na literatura (que é antropocêntrica), quem se beneficia com a “proibição” da literatura engajada?
Não sei muito bem o que o Mario Vargas Llosa quer dizer com “edificante e de propaganda”. Mas eu, particularmente, considero edificantes obras como (descontando o especismo da maioria delas): Crime e castigo, de Dostoievsky, A leste do Eden de Steinbeck, Vidas secas, de Graciliano Ramos, Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, Mãe Coragem, de Brecht, Parque industrial, de Pagu, e tantos outros textos políticos ou com preocupação social. J. M. Coetzee dá muita evidência à questão da ética animal em pelo menos três de seus livros. Bach, Haendel e Beethoven compuseram música de propaganda religiosa. A pintura Guernica, de Picasso, e o punk rock do Propagandhi são formas de protesto político. Na minha opinião todas essas são obras de grande qualidade.
E uma literatura de propaganda mais explícita, feita para ser usada no ativismo, também pode ter boa qualidade artística, sim, por que não? Ela vai ter muitas limitações, já que é educativa e precisa ser bem clara, bem dirigida e objetiva, para sua mensagem ser compreendida da melhor maneira possível. Mas, dentro dessa limitação, ela pode ser feita com talento e criatividade, e ser considerada uma obra de arte também.
Por fim, uma coisa importantíssima, para a qual artistas e intelectuais precisam ficar muito atentos, é que estão sempre surgindo formas de expressão em que a linha divisória entre arte e não-arte se desloca ou se desfaz, transformando continuamente a experiência estética e desafiando concepções estabelecidas.
Alexandra – 6) Em Humana festa e em contos como “O Santuário”, você faz comparações nítidas entre a exploração de todos os animais, tanto humanos como “outros que humanos” (other-than-humans, nas palavras de Marti Kheel). Nos últimos anos – de Marjorie Spiegel e J. M. Coetzee até as campanhas de PETA (“Holocaust on Your Plate” e “Are Animals the New Slaves?”) – vem crescendo a controvérsia sobre as comparações entre, de um lado, o holocausto e a escravidão africana e, de outro, a exploração dos outros-que-humanos. Como você encaixa seu trabalho neste contexto?
Regina – Essa controvérsia pode ter ocorrido porque: ou os ativistas não explicaram direito, às pessoas que se sentiram ofendidas, o que é especismo e o que é ser tratado como objeto ou propriedade alheia, ou eles explicaram mas essas pessoas não aceitaram a explicação. Talvez seja necessário ter mais cuidado na hora de explicar isso durante o ativismo.
De uma forma ou de outra, a realidade não muda. Qual é realidade? A realidade é que somos todos animais, alguns de nós (brancos ou não) já foram usados como propriedade alheia e tratados como coisas sem interesses, e outros de nós continuam sendo usados e tratados assim.
Se a gente entende que os animais não-humanos têm tanta dignidade quanto os animais humanos, entende também que não é ofensiva a comparação entre um animal humano e outro animal. Mas a questão aqui vai além da mera comparação entre escravos humanos e não-humanos: é uma forma de explicar o problema fundamental da instituição da propriedade de seres sencientes.
Rafael – 7) Na década de 90, antes de se tornar vegana, você trabalhou na TV Cultura de São Paulo como diretora nos programas infantis X-Tudo e Castelo Rá-Tim-Bum. Quais eram as "mensagens" mais importantes que, na época, você buscava passar para as crianças através desses programas educativos? Já havia, então, alguma preocupação sua em incluir algo a respeito do tratamento com os animais? Se hoje exercesse essa mesma função, você procuraria abordar mais intensamente esse tema também na televisão?
Regina – Naqueles programas, a preocupação principal com relação às crianças era aliar o lúdico ao interesse em aprender. Uma equipe vigiava o trabalho sob o aspecto ético e educativo, pedindo para eliminarmos ou corrigirmos as partes que apresentavam erros de qualquer tipo, ou que eram politicamente incorretas, tanto nos textos quanto nas cenas. Mesmo assim, repensando tudo agora, vejo que fazíamos muita coisa que não deveríamos ter feito.
Quanto aos animais, o que nos importava para os programas era sua beleza, seu comportamento no zoológico e na natureza, seu “talento” (pombo-correio, ator de circo) e seu bem-estar... além de seu sabor e seus nutrientes.
Chegamos a fazer no X-Tudo uma reportagem sobre uma pequena ONG que recolhia e cuidava de animais de rua, e sobre uma dondoca que tratava seu cachorro com luxo e mimos exagerados. Mas não tínhamos (pelo menos eu não tinha, nem percebi que alguém tivesse) a menor ideia quanto ao veganismo e ao fim da exploração animal.
Hoje, se fosse trabalhar em programa infantil, eu faria muita coisa diferente, ou pelo menos tentaria influenciar para que fizessem. Muito provavelmente conseguiria fazer uma matéria sobre crianças veganas, por exemplo. Mas acho que minha primeira providência seria propor a troca do nome do programa X-Tudo por outro, que não tivesse nada a ver com sanduíche de hambúrguer com queijo e ovo, nem com qualquer outra coisa feita às custas de animais!
Rafael – 8 ) De acordo com sua vivência e suas observações do atual status da causa abolicionista, com quanto otimismo você enxerga o futuro? Chegaremos, de fato, a testemunhar o fim da exploração animal? Em quanto tempo?
Regina – Nunca penso muito nisso. O futuro não existe. O futuro vai ser o que estamos fazendo agora. O importante é que estamos vivos agora, podendo e devendo ser veganos e espalhar o veganismo agora.
Fabiane – 9) Quais seus próximos projetos? Após a experiência do livro Humana festa, pensa em escrever mais abordando a escravidão animal e outros temas políticos e sociais?
Regina – O Humana festa acabou de sair e ainda estou esperando a poeira assentar... Enquanto isso, aguardo a reedição do meu livro de estreia, o Arca sem Noé, que também vai sair pela Record. (Apesar do título, o Arca sem Noé não trata dos direitos animais).
Foi ótimo participar desta entrevista virtual com vocês, Alexandra, Fabiane, Rafael e Silvana. Muito obrigada!
Fonte: ANDA - Agência Nacional de Direitos Animais

Apresentação sobre o HUMANA FESTA em Nova York

Texto da apresentação de Regina Rheda na mesa redonda Novas tendências das escritoras brasileiras no I CONGRESSO DE ESCRITORAS BRASILEIRAS EM NOVA YORK em 14-16 de outubro de 2009.

Boa noite a todos. É uma honra, para mim, fazer parte deste congresso, representando uma das novas tendências das escritoras brasileiras. Moro nos Estados Unidos há 10 anos e sou vegana há 9. Minha transnacionalidade e meu veganismo são dois fatores que têm influenciado bastante a minha ficção. Outro elemento fundamental do meu trabalho é o humor, mas hoje vou me ater só aos outros dois, começando pelo fator transnacionalidade. Ele decorre não só da minha condição de imigrante, mas também do meu fascínio pela diversidade cultural, social, ambiental, etc. como material para criação literária. Foi por isso que a cosmópole São Paulo, onde vivi durante mais de 30 anos, me inspirou a estrear na literatura de ficção com o livro de contos Arca sem Noé – histórias do edifício Copan, que foi publicado também em inglês, num volume da University of Texas Press. Depois escrevi o romance Pau-de-arara Classe Turística, com um tema transnacional, em que uma personagem pícara brasileira tenta virar cidadã europeia, aventurando-se pela Inglaterra e a Itália. O Pau-de-arara Classe Turística também foi traduzido e publicado em inglês no mesmo volume que o Arca sem Noé. O volume se chama First World Third Class and Other Tales of The Global Mix e inclui 3 contos “transnacionais” meus. Um deles, “O santuário”, traduzido como “The Sanctuary”, conta as peripécias de 2 imigrantes, um brasileiro e um mexicano, que estão nos Estados Unidos, trabalhando em um santuário de animais dirigido por um grupo de ativistas veganos. Não sei se todo mundo aqui sabe o que é vegano, ou vegan: vegana é a pessoa que não usa animais como recurso; então ela só se alimenta de produtos de origem vegetal, não usa couro, lã, seda, não frequenta circo, rodeio, zoológico e assim por diante. No conto “O santuário”, eu trato de veganismo e de transnacionalidade ao mesmo tempo. É disso, além de outras coisas, que eu trato também no meu romance mais recente, Humana festa, publicado no finalzinho do ano passado pela Record. Nele, personagens veganos brasileiros e americanos interagem nos Estados Unidos e no Brasil, defendendo os direitos animais, ou seja, defendendo o fim da exploração dos animais pelos humanos. O Humana festa nos dá uma imagem da nossa realidade histórica. No ano passado, durante a Brasa em Nova Orleans, o professor Robert Stam me disse que o assunto “animais” tinha virado um tema quentíssimo nos ambientes acadêmicos e filosóficos europeus. O número de março deste ano da revista PMLA (Publications of the Modern Language Association of America), que é a mais importante revista acadêmica americana sobre estudos literários, foi dedicado principalmente aos “Animal Studies”, trazendo uma série de ensaios sobre o assunto. Alguns desses ensaios mencionam os 2 teóricos mais importantes da defesa animal: o filósofo Tom Regan e o filósofo e advogado Gary Francione, que são contra o uso de animais pelos humanos. (Aliás, eu já traduzi trabalhos do Regan e do Francione para o português). Em julho, no Rio, houve um festival internacional de veganismo, onde fiz uma leitura do Humana festa. A escritora Adriana Lisboa transmite o respeito pelos animais em trechos de sua obra. E a professora e ficcionista mineira Maria Esther Maciel está escrevendo sobre a representação dos animais na nossa literatura, do ponto de vista ético e estético. O próprio Humana festa, meu romance, está sendo tema de um ensaio da professora Alexandra Isfahani-Hammond, da Universidade da Califórnia em São Diego. Mas o que eu acho mais importante é que todo esse interesse pelos animais não fique só no estudo e resulte efetivamente numa prática vegana. Como diz a escritora feminista afroamericana Alice Walker: "Os animais do mundo existem por razões próprias. Eles não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens".
Agora vou ler o início do Humana festa:

   -- Fuckin’ animal!
   Megan lançou a Diogo um olhar de lâminas. Ele acabava de cometer o erro de sempre. Tinha chamado de animal um motorista infrator. Megan fez uma marca no bloquinho:
   -- Mais um ponto para mim.
   -- Desculpe, Megan, animal não é insulto, eu sei. Mas, na pressa de xingar, a gente não consegue escolher o vocabulário certo e acaba usando o reacionário.
   Megan suavizou a censura dos olhos, apertou-os no sorriso de namorada. Ela entendia. A maioria das pessoas demora para aprender coisas novas. E Diogo ainda tinha de trabalhar dobrado: falar inglês e evitar a linguagem especista ao mesmo tempo.
   O infrator ultrapassou à direita, pulverizado nos pneus estridentes.
   -- Watch out, you stupid hog! -- gritou o brasileiro.
   Outro corte rápido dos olhos claros. Outro ponto a favor de Megan. Diogo desculpou-se, É a última vez, honey, juro.
   Megan aceitou a desculpa num abraço lateral. Tudo bem, por enquanto, o namorado fazer uma referência desrespeitosa a um inocente porco. O mais importante –- por enquanto -- é que ele não comia mais porco.

© Regina Rheda. Todos os direitos reservados.

Mais sobre / More about:


Humana festa (Humana Festa, A Novel)

Entrevistas não publicadas ou publicadas parcialmente, estudos, comentários de leitores, etc.

Most of the materials below are in Portuguese, but there are some in English as well.

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Comentários de alguns leitores do Humana festa, publicados aqui com a permissão deles.

Comentário do ator e poeta português Nuno Meireles (dezembro de 2013 no Facebook): "Cara Regina, acabei de ler o livro todo (Humana festa) e há tanto a dizer! Em primeiro lugar dou-lhe os parabéns sumários por ter uma escrita tão ágil, por ter humor, por ter dado à luz um livro tão bonito (todos os meus conhecidos que pegam no livro elogiam-no: bom grafismo, objecto bonito). Em segundo e mais importante lugar: parabéns por ter escrito pessoas com tantas contradições, nem boas nem más, mas pessoas, sejam veganas ou não. Isto é a pedra de toque do livro: é um livro vegano, é um livro que provém explicitamente de uma militância, é um livro que enuncia, denuncia, faz apologia mas... fala das pessoas como contraditórias. Ou seja, assume que estamos numa encruzilhada, sempre. Com os nossos desejos, estilos de vida, escolhas, passados, futuros. Isso é maravilhoso.
Agradeço-lhe - com veneração, sinceramente - ter feito ficção com tanta realidade que um neófito como eu só vai percebendo pouco a pouco: a discussão à mesa, a presença de Carol Adams, a menção de Francione e Regan, os hábitos, as convivências, os projectos, as utopias (oh, as uopias!) e também as afinidades e as procuras de abrigo, família, companhia ou entendimento.
O seu livro mostra bem, através da ficção, que:
- é possível fazer arte literária a partir de um ponto de vista tão forte e questionador quanto o vegano, em vez de isso ser contornado, anulado ou omitido.
- é incontornável de facto combater-se toda a discriminação e não apenas uma das variantes (os episódios das reuniões na venda do Norato são deliciosos, mas também amargos).
Além de ser um livro que abre o apetite com os pratos veganos, que aguça a curiosidade para com processos e entidades (a Holy Hill existirá?, pergunta o leitor), que enamora para o estilo de vida, para a liberdade de se ser vegano, é um livro que se devora, com um ritmo e até uma poesia (como no caso do corvo) extraordinários!
Antes de dizer que fiquei seu fã, eu gostava de lhe pedir novamente licença fazer uma leitura parcial do capítulo Fá, (aquele episódio de discussão/guerra à mesa...) para uma nova sessão de escritores veganos que farei aqui no Porto.
E agora sim, posso dizê-lo: fiquei seu fã!
Um abraço
Nuno Meireles
Ups, o capítulo a que me referia não é Fá, mas Lá... E adorei que os capítulos fossem os gatos!"

Comentário da poetisa portuguesa Andreia C. Faria (dezembro de 2013 no Facebook): "A Regina deixou-me uma sensação de grande leveza. É preciso que alguém escreva sobre estes temas de uma forma menos sofrida (e não quero com isto dizer menos comprometida, menos sentida), com mais humor, com mais intimidade, digamos. Algumas das personagens e situações que ela descreve têm aquele tipo de exuberância que às vezes se encontra nas telenovelas brasileiras, e olha que não seria desmérito para a Regina que alguém fizesse uma telenovela ou uma série a partir deste livro. Há aqui um sentido didáctico, de missão, como bem dizes, mas nem o estilo da Regina nem as personagens são meros ventríloquos. Sentimo-los bem de carne e osso, bem palpáveis. Eu reconheci-me em tantas das certezas e contradições. E sobretudo agrada-me esta ideia de festa, de ajuntamento, de celebração. Que o veganismo seja uma forma de celebrar o corpo, a vida, que a comida seja uma arma da luta de classes e um instrumento de discussão e de amor entre amantes."

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Entrevista dada por Regina Rheda à Revista dos Vegetarianos, publicada parcialmente dentro da matéria “Vegetarianismo entre linhas” em agosto de 2013.

Pergunta: Por que decidiu se tornar escritora?
Regina Rheda: Eu fazia cinema e TV antes, o que envolvia grandes equipes, muitos equipamentos, grandes orçamentos, etc. Decidi me tornar escritora de romances e contos para poder criar ficção com mais autonomia e economia.
Pergunta: Para você, o que é um livro bom?
Regina Rheda: Para mim, um livro bom é aquele que é escrito com imaginação, poesia, habilidade para surpreender, comando do idioma e, de preferência, ideias que não sejam reacionárias.

Pergunta: O tema central de Humana festa é os direitos animais. Por tratar de um tema tão polêmico, você teve dificuldades para publicar seu livro? Não precisa citar nomes, só queria saber se o livro ou outro trabalho seu chegou a ser recusado por alguma editora justamente porque falava sobre esse tema. Existe esse tipo de preconceito no meio editorial?

Regina Rheda: O meu romance Humana festa foi aceito logo pela primeira editora que eu procurei: a Record. Essa editora estava interessada em publicar livros de ficção com a temática animal. O fato de meu livro ser um romance com cara de romance mesmo, e não de puro panfleto ou ensaio, obviamente pesou a favor de sua publicação. Não acho que exista preconceito contra o tema direitos animais entre os editores; acho que existe mais falta de conhecimento sobre o assunto do que preconceito mesmo.
Pergunta: A defesa animal pode ser vista como assunto “chato” por um grande número de pessoas. Quais recursos literários você costuma utilizar para falar sobre isso sem deixar o leitor perder o interesse pela história?
Regina Rheda: Uso humor. Desenvolvo uma narrativa que seja envolvente e tenha uma boa dose de surpresas. Uso lirismo. Incluo informações que os leitores em geral não têm. Alterno momentos alegres com momentos tristes. Procuro criar personagens humanos intrigantes, com algumas características inusitadas (para satisfazer a curiosidade dos leitores em relação ao “diferente”) e outras características que sejam comuns a todos nós (para que os leitores se identifiquem). Tento criar personagens animais fascinantes e cativantes. Provoco os leitores, incentivando-os a tomarem partido, ou a pelo menos se engajarem, nos conflitos éticos apresentados.
Pergunta: Na sua opinião, de que modo a literatura pode ajudar a causa animal?
Regina Rheda: No mínimo, de dois modos. Primeiro: a literatura de ficção pode funcionar como motivação ou ilustração. Por exemplo, uma história pungente sobre um animal pode despertar a empatia dos leitores em relação aos animais em geral, mexendo com a emoção desses leitores e tornando-os mais receptivos a uma futura mensagem moral para se tornarem veganos. Segundo: a literatura pode ir mais fundo e direto ao que importa, colocando em foco o imperativo moral da abolição da exploração animal. Nesse caso, a escritora ou escritor deve mostrar com clareza, usando muita criatividade artística, que os humanos precisam parar de usar os animais sencientes como recursos ou propriedade. Creio que no Humana festa eu combinei os dois modos, mexendo com a emoção dos leitores e apresentando claramente uma visão de mundo vegana. O livro tem sido usado, tanto em português quanto em inglês, em cursos de literatura latino-americana de universidades americanas. As professoras me informaram de que os alunos geralmente gostam muito dele e que ele gera ótimas discussões em classe.
Pergunta: Isaac Singer, J.M. Coetzee, você, Jonathan Foer, Tolstoi, George Bernard Shaw, Mary Shelley… Em forma de ensaio, romance, conto... Muitos escritores já falaram sobre a moral vegetariana de um modo ou de outro. Levando em conta a causa, acha que falar da defesa animal usando a literatura é mais fácil ou mais difícil se compararmos com outras formas de arte, como o cinema, por exemplo? Por quê?
Regina Rheda: Meu romance Humana festa é radical, abordando o veganismo e a necessidade de abolirmos totalmente a exploração de todos os animais sencientes. Como você já sabe, nenhum desses autores que mencionou tem essa abordagem. Por essa razão, ou principalmente por essa razão, meu romance é considerado pioneiro. Quanto à literatura ser mais fácil ou mais difícil do que outras formas de arte... para mim, é mais fácil fazer literatura do que audiovisuais como cinema, etc. Acho o trabalho solitário de imaginar e escrever mais prazeroso e simples que o de negociar arte com equipes, atores, produtores e equipamentos complicados. Mas o mais importante: eu não filmaria o Humana festa,  porque os audiovisuais continuam usando animais treinados como “atores”. Em livro, os animais não são “reais”; eles são feitos apenas de letras.
Pergunta: Dos nomes que citei, só você é brasileira, mas já vive há um tempão nos Estados Unidos (e pelo que sei foi aí que aprofundou seu conhecimento sobre veganismo, né?). Por que será que o Brasil não produz tantos escritores veganos quanto os Estados Unidos ou Inglaterra, por exemplo? 
Regina Rheda: Mas esses escritores ingleses e americanos a que você se refere não são veganos não, e sim vegetarianos ou coisa do tipo. Pelo menos essa é a informação que eu tenho no momento. Então esses escritores continuam explorando os animais por seu leite, ovos, e seja o que for que os vegetarianos normalmente comem. Bem, de qualquer forma, o Brasil ainda tem um problema muito grave: falta de apoio à educação. Sem educação, não há ideias, nem escritores, nem leitores. E certas ideias progressistas (por exemplo: o veganismo), que vieram de países que dão mais apoio à educação, demoraram para chegar no Brasil. Mas, com o advento da internet, o acesso às ideias aumentou bastante. E a presidenta Dilma Rousseff prometeu investir em educação. Assim, acho que no futuro teremos mais escritores virando veganos e escrevendo sobre veganismo no Brasil.
Pergunta: O que você está lendo agora?
Regina Rheda: Agora estou lendo um livro de contos muito elogiado aqui nos Estados Unidos, do autor americano contemporâneo George Saunders: Tenth of December. Não é sobre a causa animal não...
Pergunta: Qual será o próximo livro? E quando será publicado?
Regina Rheda: Não sei. Por enquanto estou lendo muito e fazendo muitas anotações para um novo projeto. Vamos ver no que vai dar.
Pergunta: À parte Humana festa, qual livro sobre defesa animal deveria ser lido por todo mundo que se interessa pela vida dos bichos? Por quê?
Regina Rheda: Todo mundo precisa ler o livro Introdução aos direitos animais, do professor americano de Direito e Filosofia Gary L. Francione. Está para sair no Brasil pela Editora da Unicamp. A tradução é minha. É um livro imprescindível que explica, de maneira simples e direta, as razões filosóficas, éticas, ambientais e de saúde humana para pararmos de usar os animais e nos tornarmos veganos.

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Entrevista dada por Regina Rheda a Alexandra Isfahani-Hammond, professora de literatura da Universidade da Califórnia/San Diego, em outubro 2009.


REGINA RHEDA:
AS RELAÇÕES HUMANO-ANIMAIS NO ROMANCE HUMANA FESTA

Professora Alexandra Isfahani-Hammond


Nascida em Santa Cruz do Rio Pardo, Regina Rheda se formou em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da USP em 1984. No início dos anos 1980s, ela fez parte da banda de rock Esquadrilha da Fumaça e, de 1980 até 1990, escreveu e dirigiu vídeos e filmes de curta-metragem que foram premiados em alguns dos festivais mais prestigiosos no Brasil. Mas Regina é conhecida principalmente como uma das grandes escritoras brasileiras contemporâneas. Em obras que incluem Arca sem Noé - histórias do edifício Copan (1994, prêmio Jabuti em 1995), Pau-de-arara classe turística (1996), Livro que vende (2003) e First World Third Class and Other Tales of the Global Mix (2005), ela transmite uma visão ao mesmo tempo empática e irônica dos choques de cultura, das armadilhas do amor romântico, da globalização e seus descontentamentos, e dos comportamentos e atitudes eticamente esquizofrênicos. Em 2000, Regina tornou-se vegana e defensora da abolição da exploração dos animais não-humanos. Em seu romance mais recente, Humana festa (2008), ela encara, de maneira frequentemente hilária, a cegueira moral que está por trás das racionalizações pela objetificação dos animais não-humanos, e a relação entre o especismo e outros modos de exclusão baseados em raça, gênero, classe e nacionalidade. Assim como a trajetória da própria escritora, que começou na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo (SP) e chegou, por enquanto, à Flórida, a ação de Humana festa se divide entre o interior paulista e o pantanal floridiano. Com humor e a aguda sensibilidade multicultural de quem já passou por várias fronteiras, seu romance aborda os mal-entendidos de um casal brasileiro/estadunidense, enquanto articula os conceitos do veganismo e da abolição da escravidão dos animais. Seja dentro ou fora do Brasil, o Humana festa é um romance sem precedente devido ao seu engajamento explícito com a teoria dos diretos animais e, mais especificamente, com os argumentos do abolicionista e professor de Direito Gary Francione, cuja convicção de que os animais devem ser reconhecidos como pessoas constitui o argumento mais coerente, já desenvolvido até agora, pelo fim de seu uso como propriedade. Nas páginas seguintes, Regina responde perguntas sobre sua trajetória criativa, suas influências éticas e artísticas, e suas experiências tanto como cidadã global quanto como vegana num mundo antropocêntrico.


AIH: Quais os escritores que tiveram mais influência sobre seu trabalho, ou estilisticamente ou devido à sua sensibilidade quanto às relações humano-animais e outros modos de esquizofrenia moral?

RR: Primeiro, preciso dizer que foi só depois de publicar três livros que comecei a me preocupar, de verdade, com a questão animal. Meu modo de escrever sobre os animais antes de 2000 (quando me tornei vegana, ou vegan) era muito diferente do modo como passei a escrever sobre eles depois, em contos como “O santuário”, “Dona Carminda e o príncipe” e “A frente”, um pouco no romance Livro que Vende, e, principalmente, no romance Humana festa. No Humana festa, eu critico a visão de mundo especista que transforma os animais não-humanos em propriedade ou mercadorias dos animais humanos.
        Meus autores favoritos são Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos e outros modernistas brasileiros. Macunaíma me marcou muito, tanto o livro quanto o filme. Também gosto bastante de Margaret Atwood e Gore Vidal. Acho que a influência desses autores pode ser encontrada em meu estilo, particularmente no registro irônico e humorístico.
        Aderi à ideologia abolicionista, que é a favor da abolição da exploração animal, lendo, principalmente, o filósofo e advogado estadunidense Gary L. Francione. Antes disso, eu já havia me informado sobre a ligação entre o patriarcado, o consumo da carne e o sexismo, lendo a feminista Carol Adams. A afroamericana Alice Walker escreveu ficção com uma abordagem ecofeminista. Uso uma declaração dela como uma das epígrafes do Humana festa: “Os animais do mundo existem por razões próprias. Eles não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens”.

AIH: Que efeitos seu engajamento na defesa animal teve em sua literatura?

RR: A defesa da causa tem influenciado muito a minha escrita, quanto à temática e à estética. Tenho tido de trabalhar bastante na carpintaria da minha literatura para evitar que críticos conservadores ou puristas a descartem, logo de saída, como uma mera “doutrinação” ideológica. Minha intenção principal não é “doutrinar”, e sim me expressar artisticamente; de quebra, quero ajudar a mudar o mundo. Mas sei que a sociedade não vai mudar só por causa de um romance. E tenho consciência de que expor literariamente a injustiça da exploração animal, num meio que ainda considera usar animais tão normal quanto respirar, é arriscar-se a suscitar verdadeiros paroxismos de ansiedade carnívora na chamada “reação”, por mais trabalhada que seja a forma dessa literatura.

       AIH: Sua obra aborda opressões interligadas, choques de cultura e espaços intersticiais. Como é que suas viagens, incluindo a experiência de brasileira na Flórida, influenciaram sua perspectiva sobre o “global mix”?

        RR: Eu tenho fascínio pela diversidade cultural, social, ambiental, etc., como material para a criação literária. Então sempre estive atenta a todas as minhas experiências, no Brasil e fora do Brasil, que pudessem ser reelaboradas em ficção de maneira instigante, inusitada ou curiosa para meus leitores ideais. Foi por isso que a cosmópole São Paulo, onde vivi durante mais de 30 anos, me inspirou a estrear na literatura de ficção com o livro de contos Arca sem Noé – histórias do edifício Copan, que foi publicado também em inglês, num volume da University of Texas Press, em 2005. Depois escrevi o romance Pau-de-arara Classe Turística, com um tema transnacional, em que uma personagem pícara brasileira tenta virar cidadã europeia, aventurando-se pela Inglaterra e a Itália. O Pau-de-arara Classe Turística também foi traduzido e publicado em inglês no mesmo volume que o Arca sem Noé. O volume se chama First World Third Class and Other Tales of The Global Mix e inclui três contos “transnacionais” meus.
               Trabalhar com o surpreendente ou o inusitado me desafia a procurar formas menos comuns de expressar os efeitos da surpresa, do diferente. Gosto de elaborar sobre conflitos de todo tipo, porque esse trabalho permite que eu me coloque de um lado do conflito de cada vez, num jogo que eu considero prazeroso, muito semelhante ao de uma atriz que vive trocando de papéis. No romance Humana festa, eu dou voz a todas as partes. Mas isso não significa que o livro tenha uma posição ética relativista. Ao contrário, tem uma visão de mundo inequívoca.

AIH: Temos presenciado uma onda de atenção intelectual à questão moral do uso dos animais. Mais notavelmente, em “L’animal que donc je suis” (2002), Jacques Derrida compara a superprodução e o extermínio dos animais nos abatedouros e laboratórios de experimentação com os piores casos de genocídio. Por outro lado, a maioria dos acadêmicos e intelectuais continua a pensar nos animais só como idéias ou símbolos a serem desconstruídos. Quais são as chances desses intelectuais lerem a obra de Derrida, ou então o Humana festa, e repensarem mais radicalmente suas relações com os animais não-humanos de carne e osso?

RR: De fato, o número de março de 2009 da Publications of the Modern Language Association of America, que é a mais importante revista acadêmica americana sobre estudos literários, foi dedicado principalmente à questão da animalidade e aos Animal Studies, trazendo uma série de ensaios sobre o assunto. Mas, se essa onda de preocupação com os animais é nova no Ocidente, não é novidade nenhuma entre os seguidores do jainismo, uma religião nascida na Índia há mais de 3 mil anos. Os jainas, ou jainistas, norteiam-se pelo princípio da Ahimsa, ou não-violência, e são contra causar dano aos animais. Normalmente são vegetarianos, mas muitos estão se tornando veganos por perceberem que todo uso de animal constitui violência.
        Esse interesse dos intelectuais ocidentais pela animalidade na literatura e em outras formas de arte e conhecimento humano só fará sentido se resultar numa prática do veganismo por parte desses intelectuais e seus discípulos. Este é um daqueles casos em que o objeto estudado precisa ser o principal beneficiário do estudo!
      
       AIH: Para muitas pessoas, a questão dos direitos dos animais continua a ser vista como uma proposta não séria. Como o Humana festa tem sido recebido no Brasil,  até agora?

       RR: Estando nos Estados Unidos há 10 anos, não tive controle sobre a divulgação e a distribuição do livro. Então, não sei dizer até que ponto seu tema principal, que é veganismo/direitos animais, teve, ou deixou de ter, potencial para atrair o interesse dos críticos e leitores.
               Com certeza Márcio Seligmann-Silva, respeitado ensaísta, professor de literatura comparada e teoria literária, além de favorável à causa dos direitos animais, deu todo seu apoio ao livro, o que ficou demonstrado na orelha que ele escreveu e em comentários que ele fez privadamente. O próprio fato de o livro ter sido publicado pela editora Record, uma das maiores e mais poderosas editoras do Brasil, indica apreciação pelo seu tema e qualidade.
               A julgar pelos e-mails que tenho recebido e outros comentários que tenho lido on line, quase todo mundo que leu o Humana festa teve uma reação extremamente positiva, referindo-se sobretudo à sua força narrativa, ao prazer proporcionado pela sua leitura e à sua posição a favor dos animais. Porque a verdade é que quase todas as pessoas de todas as culturas deste mundo se preocupam com os animais e acham errado causar-lhes sofrimento e morte sem necessidade. Cabe aos veganos informá-las de que o consumo de animais sempre envolve sofrimento e morte, e que o veganismo não é apenas possível, como também necessário por razões ligadas à ética, à saúde humana e ao ambiente.

       AIH: Os personagens de Humana festa são tão vívidos que, para mim, foi impossível deixar  de imaginar a sua adaptação cinematográfica. Especialmente no caso da Dona Orquídea, com sua saia de algodão, camiseta de propaganda, sandália havaianas e lenço banhado em alfazema. Como você vê o impacto de sua carreira de cineasta  sobre sua voz literária?

        RR: Tenho uma vocação para o audiovisual e a performance. Eu me formei em Cinema, na Universidade de São Paulo e, durante 10 anos, trabalhei e ganhei prêmios na área de roteiro e direção de curtas, longas e vídeos. Minhas neochanchadas musicais estão entre os filmes que iniciaram o boom do curta brasileiro nos anos 1980s, e esse boom do curta precedeu a chamada “retomada” da produção de longas metragens de boa qualidade no Brasil, após uma das crises vividas pelo cinema nacional. De qualquer maneira, acabei migrando para a literatura e ganhei um prêmio Jabuti com o meu livro de estreia, Arca sem Noé – histórias do edifício Copan.
              O Humana festa só poderia ser filmado com a ajuda de muitos efeitos de animação, já que sou contra forçar animais a serem “atores” em qualquer tipo de entretenimento que seja. No próprio livro, debaixo dos dados sobre o copyright, eu fiz questão de colocar este aviso: “A autora só permite a transposição do romance Humana festa para formas de arte e comunicação que não usem animais verdadeiros”.

       AIH: Em Humana festa, você retrata a realidade da fazenda industrial e a ideologia do veganismo dentro de uma narrativa com muitos toques de humor. Como você entende o papel do humor no esforço para efetuar mudança social e, mais especificamente, para aumentar a conscientização sobre os direitos animais?

       RR: O humor e a ironia são muito marcantes no meu trabalho. Entendo que, no meu romance, o humor combina duas funções. Uma é a de cativar, dar prazer, conquistar. Outra, a de ir além do puro prazer do riso, engajando o leitor e provocando-o, procurando levá-lo a questionar ou criticar as coisas erradas.
               Mas não foi muito fácil trabalhar, com humor e ironia, um tema delicado e, ao mesmo tempo, terrível, como é o tema da escravidão animal. Procurei usar humor sempre que possível, mas com muito cuidado para que, em determinados casos (por exemplo, quando trato das personagens Megan e Sybil), a graça fosse percebida pelos leitores como restrita às personagens e às situações que elas vivem, e não como um sinal de desprezo da autora pelos esforços dos ativistas que estão tentando expandir o veganismo na vida real. Também tentei trabalhar o humor, além de outros fatores, de forma a deixar o mais claro possível, para o leitor, que certas atitudes de certos personagens têm uma atitude correspondente criticável na vida real. Outras vezes, fiz uso de ironia sutil e ambígua, pelo puro prazer de escrever ironias. Mais importante ainda, tomei muito cuidado para jamais banalizar a pavorosa situação dos animais.

       AIH: Existe muita resistência ao reconhecimento dos paralelos entre as maiores atrocidades globais e o tratamento contemporâneo dos animais nos abatedouros, laboratórios de experimentação, fazendas de peles, etc., pelo mundo inteiro. Qual a sua reação a esta resistência? Como você vê as interseções entre diferentes formas de exploração na sua obra?

       RR: Para mim, é fácil enxergar que a raiz de todas as formas de opressão é a violência. A violência usa seres sencientes -- sejam eles humanos ou não-humanos, de qualquer raça, cor, gênero, espécie, etc. -- como se fossem coisas, como se fossem recursos para os fins do opressor. Todas as vítimas de um campo de concentração, de um matadouro, de um senhor de escravos, de uma fazenda, ou de uma guerra, sejam elas seres humanos ou seres não-humanos, são seres com valor inerente, que estão sendo usados como objeto, ou recurso, ou propriedade alheia.
              No Humana festa eu procuro trabalhar, de diferentes maneiras, a ideia do opressor comum de animais humanos e não-humanos. Uma dessas maneiras envolve o personagem Afonso Bezerra Leitão, um grande proprietário de fazendas de gado e porco às voltas com conflitos de trabalhadores rurais e ações diretas de uma matuta que tenta defender os animais.

       AIH: Por um lado, a atual superprodução e a matança de animais não-humanos é sem precedente. Por outro lado, existem um reconhecimento e uma indignação cada vez maiores quanto à exploração dos animais não-humanos. Como você vê a evolução do movimento pelo fim da exploração animal no Brasil?

       RR: Um movimento autêntico pelo fim da exploração animal é aquele em que os ativistas são veganos e educam as outras pessoas a serem veganas também. Esse movimento divulga o veganismo ético para mudar o paradigma moral da sociedade e acabar com o uso de animais como recursos ou propriedade dos humanos. Mas ainda é um movimento muito pequeno no mundo todo, inclusive no Brasil, embora esteja crescendo. Infelizmente, o tipo de “defesa” animal que predomina em todo lugar é o chamado bem-estar animal, que supostamente torna a exploração mais “humana”, ou humanitária, como se diz no Brasil. Na realidade, o bem-estar animal perpetua a exploração. Só o veganismo é capaz de acabar com a violência, a injustiça e a exploração que vitimam os animais.

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Resumo da palestra/ensaio (2008) de Alexandra Isfahani-Hammond (professora associada de Literatura Comparada na Universidade da Califórnia-San Diego e autora do livro White Negritude: Race, Writing and Brazilian Cultural Identity).

 Os humanimais de Regina Rheda: HUMANA FESTA e o romance pós-escravidão
A professora Alexandra Isfahani-Hammond examina o romance de Regina Rheda Humana festa (2008), uma comédia de costumes pioneira sobre o agronegócio neoliberal pós-escravidão no interior paulista, a qual delineia as premissas da abolição da exploração animal em relação às estruturas pós-coloniais de dominação. A professora Alexandra situa o romance de Rheda no contexto das discussões pós-escravistas brasileiras sobre raça, nação e dialética humana/animal, desde a antropofagia de Oswald até as atividades de defensores dos animais.

Essa discussão sobre Regina Rheda será retrabalhada em um capítulo do atual projeto de livro da professora, Animal Bodies: Race, Species and Brazilian Cultural Theory [Corpos animais: raça, espécie e teoria cultural brasileira]. Do protagonista humano-cum-canino em Quincas Borba (1891) de Machado de Assis, até os animais de fazenda criados para abate em Amarelo Manga (2002) de Cláudio de Assis, os animais não-humanos são instrínsecos ao imaginário brasileiro referente ao conflito e à racialização pós-coloniais. Por meio de leituras de textos abrangendo desde o Manifesto Antropófago (1928) de Oswald de Andrade até Humana festa (2008) de Regina Rheda, Isfahani-Hammond indaga sobre tópicos como a natureza, os animais e os indígenas; o corpo como máquina; a violência das fazendas e a canibalização; sexualidade e animalidade; e a questão da carne. De que modo as figuras animais têm sustentado ou minado os sistemas coloniais e escravagistas de dominação? 
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An abstract of a talk/an essay (2008) by Alexandra Isfahani-Hammond (Associate Professor of Comparative Literature at U.C. San Diego, and author of White Negritude: Race, Writing and Brazilian Cultural Identity).

Regina Rheda’s Humanimals: Humana festa and the Postslavery Novel

Professor Alexandra Isfahani-Hammond’s talk investigates Regina Rheda’s Humana festa (2008), a pioneer comedy of manners about the postslavery, neoliberal agribusiness interior of São Paulo that delineates the premises of the abolition of animal exploitation in relation to postcolonial structures of domination. She situates Rheda’s novel in the context of postslavery Brazilian discussions of race, nation and human/animal dialectics, from Oswald’s antropofagia to the activities of animal rights advocates.

This discussion of Regina Rheda will be revised into a chapter of Isfahani-Hammond’s current book project, “Animal Bodies: Race, Species and Brazilian Cultural Theory.” From Machado de Assis’s human-cum-canine protagonist in Quincas Borba (1891) to the farm animals for slaughter in Cláudio Assis’s Amarelo Manga (2002), non-humans are intrinsic to Brazilian imaginaries of postcolonial conflict and racialization. Through readings of texts ranging from Oswald de Andrade’s Manifesto Antropófago (1928) to Regina Rheda’s Humana festa (2008), she interrogates topics such as nature, animals and the indigenous; the body as machine; plantation violence and cannibalization; sexuality and animality; and the question of meat. How have animal figures sustained or undermined colonial and slavocratic systems of domination?
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Palestra de Regina Rheda numa mesa redonda de escritores brasileiros, no congresso da Brasa, New Orleans, 2008.

É uma honra estar aqui com minhas talentosas colegas escritoras e todas essas outras pessoas brilhantes.
O que mais me motiva a escrever  ficção são os temas, e não o ato em si da escrita. Até agora, poucos foram os momentos em que me sentei ao computador para batucar palavras aleatórias e esperar que, atrás dos primeiros batuques, viessem outros para formar uma batucada. E seja qual for o meu tema, estou sempre determinada a explorá-lo com humor, o que significa que estou destinada a escrever muitas coisas politicamente incorretas. Já dizia Mark Twain: “There is no humor in heaven”.
Dentre os temas que tenho trabalhado, vou falar hoje de dois. Um é a experiência de animais humanos em terra estrangeira. Outro é a injustiça que os animais humanos cometem contra os animais não-humanos pelo fato de usá-los, injustiça que parece maior ainda quando nós nos damos conta de que 99,9% do uso que fazemos dos animais, causando-lhes sofrimento e morte, são só para nosso prazer, nossa diversão e nosso comodismo.
Sobre a experiência de animais humanos em terra estrangeira,  vou ler um trechinho do meu primeiro romance, Pau-de-arara classe turística,  de 1996. Saiu no Brasil pela Record e está publicado em inglês num volume da University of Texas Press. Nele eu explorei as peripécias da personagem pícara Rita Settemiglia, uma jovem brasileira branca, de classe média e de descendência italiana, que troca um futuro incerto no Brasil pelo sonho da cidadania européia. Ela emigra para a Inglaterra e em seguida para a Itália, e trabalha ilegalmente, submetendo-se a atividades muito aquém de sua qualificação profissional e, em certos casos, incompatíveis  com suas convicções morais, enquanto espera obter um passaporte italiano. Entre as tentativas que Rita Settemiglia faz de se estabelecer na Inglaterra, está a de se aproximar do agente de imigração Ian Weston com a intenção secreta de se casar com ele, virar cidadã inglesa e então se divorciar o mais rápido possível. Ian Weston, de sua parte,  faz planos secretos de passear com ela pelo Texas, aliando um velho sonho turístico a um sonho de sexo. No trecho a seguir, em que Ian Weston recebe um telefonema de Rita Settemiglia, predomina o discurso indireto livre. Por meio desse discurso indireto livre percebemos que a mãe adotiva de Ian, a idosa Mrs. Weston, não sabe direito o que está acontecendo  com o filho e não gosta nem um pouco do que pressente:

- Aqui é Ian. Alô, Rita! Como vai? – o agente virou-se para a parede,  dobrando-se sobre o fone como um ponto de interrogação.
Mrs. Weston sentiu uma pressão em várias regiões do corpo, não sabia dizer se nos músculos, nas articulações ou nos tendões. Então era a tal da estrangeira outra vez. Era por esse telefonema que Ian esperara a tarde inteira, zanzando pela casa como um velho aposentado, os olhos um pouco mais redondos e mais abertos do que o normal.
Mrs. Weston não pudera tomar seu chá na mesa da sala, como fazia todas as noites, porque ele ocupara o móvel com uma papelada infernal, que examinara fazendo um bico com o lábio inferior, mania que conservava desde menino, quando olhava revistas coloridas sentado no chão. Primeiro, resolvera estudar o atlas geográfico, rastreando os confins bárbaros da América do Sul. Depois, espalhara sobre o móvel  folhetos turísticos com fotografias do Texas. Em seguida, depositara o queixo na palma das mãos, com os cotovelos fincados na mesa, e nessa posição permanecera por mais de trinta minutos, assistindo, no teto, ao seu desfile particular de quimeras.
- Sim, um wine-bar seria interessante. Está bem, podemos nos encontrar direto lá, se você preferir. Eu também gostaria de estar de volta cedo. Até mais tarde.
Ian ia encontrar-se em um bar com uma americana, talvez do Texas ou então de Buenos Aires, chamada Rita. Uma boêmia, uma biscatezinha. Moças honradas não se encontram em botequins.

No meu conto  “O Santuário”,  publicado numa antologia de vários autores brasileiros em 2002,  depois publicado em inglês no mesmo volume da Utexas Press, e que vai ser republicado em inglês em janeiro de 2009 na antologia Luso-American Literature pela Rutgers University Press, eu trabalhei ao mesmo tempo com meus dois temas favoritos – a experiência estrangeira e a injustiça humana contra os animais. O Santuário” começa assim:

João decidira permanecer ilegal nos Estados Unidos para progredir na vida, mas foi rebaixado de ladrão de filé de frango congelado a ladrão de galinhas de terreiro. Culpa (ele tinha certeza) da sua confiança no pessoal da igreja e nos imigrantes ilegais que a igreja tentava ajudar. Agora estava comprometido, tinha de enfrentar a situação. Guiado pelo mexicano Juan, marcara os xis nos quadradinhos do formulário em inglês que o pessoal da igreja entregara a eles dois. Os xis garantiam: João tinha experiência no trabalho proposto, era vegetariano e queria viver seis meses de graça no Silver Sunshine Farm Sanctuary, como vigia e faz-tudo, em regime de semivoluntariado, tempo integral.
Sunshine, silver, inglês, americano, carajo. Com o espanhol João até se virava, mas o inglês era diferente demais do português. João tentava acordar da alucinação que era o país dos outros, fisgar algum sentido nas falas e nos gestos das pessoas, montar um cenário palpável em volta do corpo zonzo. Juan, que tinha mais jeito para idiomas, explicava algumas coisas para o brasileiro, em portunhol. Silver Sunshine quere dicir Raio de Sol de Plata, e sanctuary quere dicir… Quer dizer santuário, cortou João, fazendo os xis nos quadradinhos, sou ruim de inglês mas não sou burro.
O trabalho no santuário era muito diferente daquele que João imaginara. Ele não limpava cocô de pomba de imagens de santos, mas tirava cocô de galinha dos abrigos onde elas faziam ninhos; não monitorava visitas de fiéis a alguma capelinha, mas conduzia vacas e carneiros entre pastos e currais; não assistia a curandeiros ou médiuns, mas ajudava veterinários no tratamento de perus obesos, ovelhas mutiladas, porcas estafadas, bezerros anêmicos. Si, sanctuário puede ser um lugar para la gente facer oraçons, disse Juan, pero el sanctuário donde nosotros trabajamos es un refúgio para animals maltratados em hacendas. Por que não explicou antes, mexicano da porra?
         Como se João fosse entender fácil a explicação. No Brasil, ele jurava, nunca tinha ouvido falar naquilo. Santuário para cuidar de bicho de fazenda sofrido, só em país rico, de gente sem o que fazer. País de maricóns, disse o Juan. Non vê los veterinários de Silver Sunshine? Magricelos, delicadinhos. Já a diretora, o outro completou, a Miss Susan Wolcott, putaquepariu, se aquilo for mulher, eu sou uma galinha poedeira. Acá es todo ao contrário. Mujer parece hombre, hombre parece mujer e gente trabaja para bicho. Riam, João mordia uma coxa de galinha, Juan comia mais taco.

Agora estou reunindo os dois temas também no meu novo romance,  chamado Humana festa, que vai ser publicado no Brasil em outubro pela editora Record. Entre os personagens principais do romance estão a jovem universitária Megan, americana, vegan e ativista  pelos direitos animais, e seu namorado brasileiro, Diogo, que estuda Faculdade de Floresta na Flórida e está se tornando vegano, ou vegan,  por influência dela. (Vegan, para quem não souber, é uma postura ética de respeito ao direito que os animais têm de não ser usados como propriedade ou recursos dos humanos). Um conflito vivido pelo casal é o fato de que os pais de Diogo são donos de 4 fazendas de gado e porcos no Brasil. Eles dois combinaram de  usar um bloquinho de anotações,  onde Diogo marca todas as vezes em que ele acha que Megan está exagerando na pregação  pró-veganismo,  e Megan marca todas as vezes em que Diogo está sendo especista, isto é, está discriminando um ser por causa da sua espécie. O romance começa assim:

-- Fuckin’ animal!
Megan lançou a Diogo um olhar de lâminas. Ele acabava de cometer o erro de sempre. Tinha chamado de animal um motorista infrator. Megan fez uma marca no bloquinho:
-- Mais um ponto para mim.
-- Desculpe, Megan, animal não é insulto, eu sei. Mas, na pressa de xingar, a gente não consegue escolher o vocabulário certo e acaba usando o reacionário.
Megan suavizou a censura dos olhos, apertou-os no sorriso de namorada. Ela entendia. A maioria das pessoas demora para aprender coisas novas. E Diogo ainda tinha de trabalhar dobrado: falar inglês e evitar a linguagem especista ao mesmo tempo.
O infrator ultrapassou à direita, pulverizado nos pneus estridentes.
-- Watch out, you stupid hog! -- gritou o brasileiro.
Outro corte rápido dos olhos claros. Outro ponto a favor de Megan. Diogo desculpou-se, É a última vez, honey, juro.
Megan aceitou a desculpa num abraço lateral. Tudo bem, por enquanto, o namorado fazer uma referência desrespeitosa a um inocente porco. O mais importante –- por enquanto -- é que ele não comia mais porco.

Mesmo que o Humana festa seja um livro bem-humorado, a escravidão  dos animais – isto é, a escravidão de seres que têm interesse em não ser dominados, usados, maltratados e mortos - é um tema terrível  demais para não ser tratado a sério. Um momento grave do romance é o que vou ler agora. Nesse trecho, Megan está sendo submetida à cirurgia de Mohs, um procedimento para retirar um tumor maligno na pele, chamado “câncer basocelular”, que apareceu na pálpebra de um de seus olhos. O cirurgião, Dr. Stanley, tem como hobby a caça, e a sala de espera de sua clínica é decorada com os animais caçados que ele mandou empalhar. Durante a cirurgia, Megan mantém o outro olho aberto e nós acompanhamos as suas reflexões:

Abrir um olho era bom para frear os pensamentos. No escuro, eles disparavam, atropelavam-se com os paradoxos e o medo. No claro, respiravam, ganhavam pontuação e lógica. O basocelular é menos grave que o espinocelular vírgula que é menos grave que o melanoma ponto e vírgula quem tem o primeiro está mais suscetível a ter os outros dois ponto. O olho de Megan tentou caçar no teto algum pensamento alegre. Não mata, geralmente, mas desfigura, o basocelular, que tende a se manifestar de novo e que, se não tratado logo, pode destruir nervos, cartilagens e ossos da região vizinha ponto. Megan sentiu na testa o ar quente que o doutor Stanley soltava pelo nariz. Aquele ar quente demorava uma eternidade para viajar até a testa dela e, quando chegava, era como se o doutor Stanley não estivesse perto. Impossível transpor o vácuo que se forma entre um ser com medo e o resto do universo. A dor excruciante, o medo mortal são só de quem os sente. Megan poderia compartilhar com Sybil ou Diogo a dor de um câncer e o medo de morrer, mas só no nível conceitual. Sofre e morre em solidão cada um dos bilhões de seres que sofrem ao mesmo tempo e morrem ao mesmo tempo, todos os dias, nas guerras, nos matadouros, nas celas, nas jaulas. O olho passou do teto para o rosto do cirurgião. Bonito, aquele rosto. Ainda bem. Pior se fosse um estrupício. Ter de olhar um estrupício num momento tão crítico seria mais patético. O doutor Stanley era um quarentão com físico de atleta e cabelo. Seus olhos azuis não saíam da pálpebra de Megan, e ela imaginou que pudessem se aventurar por outras partes de seu corpo, em uma oportunidade adequada. As mãos dele eram suaves como sopros -- e criminosas. Curavam, mas também matavam. O doutor Stanley era contraditório. Será que existe alguém que não seja? Em uma cultura toda estruturada sobre a exploração dos seres vulneráveis, parece faltar consistência ética até ao mais correto dos humanos. O doutor Stanley deu-lhe um sorriso e uma piscada, e o olho de Megan fugiu para a parede. Seus pensamentos marcharam para o teto em fila ordenada. Ninguém é puro. Ela, por exemplo, militava pela abolição do uso de animais em pesquisas científicas, mas não tinha como escapar da mesma medicina equivocada que os sacrificava aos milhões, nos laboratórios. Fazer o quê? Suicidar-se? As coisas não mudam de repente e, enquanto um monte de gente não aprender que os animais não são meios para os fins da humanidade, uma ativista que se preze tem de continuar a jornada, mesmo manca, um pé ágil na trilha reta, o outro atolado na torta. Seu olho rastejou de volta para o rosto do cirurgião e experimentou ficar ali mais um tempinho. A idade riscava com leveza a pele em torno daquela boca um tanto enjoada, de um enjoamento de cereja doce demais, quase de batom. Em que trechos daqueles riscos paravam de se imprimir as curas do doutor Stanley e começavam a se imprimir seus crimes? Cada humano com suas contradições. Megan, por exemplo, que lutava pela proibição da caça, agora se excitava com a proximidade do rosto bonito de um caçador, esquecida do namorado que a esperava na sala e que se oferecera para pagar a cirurgia. Megan empurrou o olho de volta à parede, prendeu-o contra ela com a força da culpa. Talvez o doutor Stanley não fosse contraditório, mas consistente em sua crueldade, violador de organismos sencientes com o rifle e o bisturi. O doutor Stanley, sádico na caça e na cirurgia de Mohs, deixaria de propósito, na pálpebra da Megan, um restinho de câncer que se espalharia pelo seu organismo até matá-la. Não haveria prova do crime, ninguém poderia fazer nada por ela, prisioneira de guerra no laboratório frio e isolado, sufocado de medo, fedendo a químico, onde não se permite dó, de onde não escapa nenhum pedido de ajuda, de onde os animais só saem mortos.

E deixo vocês com essas imagens horríveis  de um laboratório de cobaias.