Orelha do romance HUMANA FESTA

Humana festa, o quinto livro em português de Regina Rheda, é uma obra original. Sua temática é de uma atualidade total e urgente: como lidar com o fato de que a hegemonia dos humanos sobre os demais animais não é mais defensável. Como lemos neste romance, abrir mão desta posição de ponta na hierarquia das espécies também significa abrir mão do patriarcalismo.

Não por acaso uma das epígrafes deste livro é de Percy Shelley, um dos mais importantes poetas do romantismo inglês: naquela época a humanidade refletiu profunda e angustiadamente sobre a sua situação prometeica. O capitalismo e as tecnologias de então anunciavam a possibilidade do ser humano desbancar Deus. Agora vivemos sob a ameaça de ser esmagados pela técnica e pela natureza, que se rebelam. Somos obrigados a repensar o que são a natureza e o biopoder. Como lemos no livro: “está errado aproveitar-se dos animais, humanos ou não, como se eles fossem meros instrumentos, seja lá para o que for!”

Os protagonistas desta obra são veganos, ou seja, seguidores de um modo de ver o mundo que o coloca de ponta-cabeça, porque reconhece que devemos respeitar toda vida animal capaz de sentir, pois estes animais devem ser vistos como alguém, “pessoas”. Isto porque possuem uma consciência de si e não podem ser reduzidos à nossa propriedade. O enredo trança destinos que se localizam na Flórida, em Massachusetts e em uma grande propriedade rural no Brasil.

A história serve de alegoria para a apresentação do veganismo e dos desafios que sua “realização” significará. Pois, afinal, trata-se de uma utopia pós-patriarcal e pós “especista”, talvez uma das poucas bandeiras revolucionárias em uma época que se considera pós-utopias. Os personagens têm nomes-papéis que explicitam este projeto alegórico: Megan (para vegan), Bob Beefeater, Afonso Bezerra Leitão, Marcela Gallo Sardinha, Mortandela (um suíno), Dona Orquídea etc.

A pergunta colocada pelo livro repercute e, esperemos, deve incomodar de modo produtivo: “Até quando um vegano será considerado radical, e um humano que explora animais, sensato?”(Márcio Seligmann-Silva, professor de teoria literária e literatura comparada na Unicamp).
Humana festa. Romance de Regina Rheda. Rio: Record, 2008.